Para uma internet sem sonhos nem ilusões: o olhar cético de Zygmunt Bauman – Pack Teórico III

A internet é um espaço que tem canalizado muitas expectativas e gestado muitos sonhos. Em geral, os usuários do ciberespaço estão ávidos e encantados pela possibilidade de que a nova rede mundial de pessoas, informações e conhecimento, possibilite a construção de novos espaços de sociabilidade, de trabalho, de participação, de reconhecimento e inclusão social-cultural. Aparte o sonho e a potencialidade em aberto que a tecnologia e o devir histórico nos permitem, se tomarmos as interpretações e os diagnósticos de um dos maiores sociólogos contemporâneos, Zygmunt Bauman, o balanço de suas análises nos indicam um olhar cético perante a internet.Trabalhar na rede, conhecer pessoas, estabelecer relacionamentos virtuais, produzir, consumir produtos e informações em proporções nunca imaginadas. Quem aqui nunca se encantou e viveu o sonho, ainda que por curtas divagações, oferecido pela internet? Mais importante ainda, quais seriam os elementos que poderiam nos sinalizar se estamos mesmo diante de uma transformação positiva de nossos contextos, numa escala mundial, ou, ao contrário, tudo não passa de um mito contemporâneo, um mero golpe de vista histórico-ideológico? Ao que parece, poucos se arriscam neste terreno movediço.

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*nota importante: este texto é o esboço do artigo do Pack Teórico III. Muitas idéias precisam de maior desenvolvimento, mas como ando sem tempo para isso, disponibilizo na rede o texto com todas as suas dificuldades contando mesmo até com a participação e dicas dos eventuais leitores e críticos. Os outro Packs (I e II) podem ser lidos no NossaVia:

Como Bauman não aborda diretamente a internet como um problema em suas obras, o objetivo deste post é justamente ensaiar quais seriam as possíveis aplicações de seus conceitos no âmbito da internet e qual seria a sua posição perante este debate do futuro da rede.

Introdução – o autor e seus temas

Zygmunt Bauman, sociólogo polonês de origem judaica que nasceu em 1925. Foi professor de filosofia e sociologia na universidade de Varsóvia e atualmente leciona sociologia numa universidade inglesa, em Leeds. Como muitos pensadores do leste europeu, foi um estudioso do pensamento marxista e participou do partido comunista polonês. Porém, já no ano de 1968, por conta de uma perseguição anti-semita do governo comunista na Polônia, após passar por algumas cidades, Bauman se muda para a Inglaterra, país no qual se torna professor e reconhecido intelectual. Depois de seu início de carreira como pensador de inspiração marxista, Bauman passa a se destacar como um pensador rico em insights sobre as contradições da sociedade contemporânea, sobretudo a respeito das questões postuladas pelo debate da pós-modernidade.

Como já fora apontado no início deste texto, Bauman não é um autor que aborda especificamente questões da internet. Seu pensamento se ocupa de articular questões que envolvem os problemas sociais que estão tomando corpo no mundo contemporâneo. Boa parte de seu diálogo se dá com os sociólogos britânicos da Teoria Social (Social Theory – Anthony Giddens, Ulrich Beck, Richard Sennett, entre outros) e envolvem debates sobre como esse nosso mundo contemporâneo, por sua complexidade, estaria exigindo novas categorias de pensamento, sobretudo, novos constructos teóricos para além daqueles que o pensamento sociológico clássico nos legou. Para se ter uma idéia do que isso significa, podemos pensar, apenas para dar uma noção do que seria essa busca de novas categorias, em exemplos como:

É possível utilizar conceitos como classe social, modos de produção, capitalismo, Estado-nação, sociedade, anomia, cultura, identidade, etc. para pensarmos os problemas atuais?

Ao que tudo indica, a complexidade e a velocidade na qual as coisas acontecem em nosso presente faz com que tudo seja construído e destruído com uma rapidez nunca imaginada. Modelos de vida, valores morais, saberes, carros, equipamentos eletrônicos, comportamentos, programas de televisão, tendências culturais, tudo é produzido e descartado numa velocidade incrível. Inclusive teorias e modos de compreensão do mundo: estes parecem não dar conta de explicar muita coisa sobre nossos problemas concretos, nem oferecer nada além do que meras narrativas saudosistas a respeito de mundo que gostaríamos de ter. Não acreditamos mais que um sistema de pensamento possa oferecer alguma resposta, solução ou alternativa aos problemas que vivenciamos cotidianamente: não temos mais ideologias nem utopias, somos “realistas” e nos chocamos cada vez menos diante das mazelas humanas e dos idealismos que pregam as suas transformações. O resultado é uma espécie de “conformismo pseudo-realista” na qual a única alternativa é uma salvação individual, uma questão de desafio pessoal na qual o indivíduo se vê como o único responsável pelo seu sucesso profissional-financeiro, em que pese as condicionantes histórico-sociais.

Uma das teses de maior importância para a trajetória de seu pensamento foi apresentada em um de seus maiores livros, Modernidade e Holocausto. Nele se encontra uma interpretação que inverte o modelo convencional no qual as sociedades ocidentais, sobretudo, aquelas culturamente influenciadas pelos países aliados, de que o Holocausto foi um momento de irracionalidade e barbárie do mundo europeu.

Bauman irá defender uma tese contundente de que não se tratou de um acidente histórico, ou de um caso específico de crueldade na história. O Holocausto deve ser inscrito no processo que caracterizou toda a modernidade, toda a cultura dos países ocidentais, ele foi um acontecimento inscrito na lógica da modernidade, uma espécie de culminância exacerbada do projeto civilizatório, como uma contradição latente.

Questões que podem amarrar Bauman a internet

Que tipo de contribuição poderíamos extrair do pensamento de Bauman para as questões que a internet nos tem colocado?

Iniciemos a reflexão por alguns pontos oferecidos pela internet, ou mais especificamente, pelos propagadores e otimistas da rede.
A rede como um espaço novo de sociabilidade – democratização da informação – expansão dos canais de conhecimento – integração de culturas e manifestações artísticas – surgimento de novos produtores de informação ( pessoas comuns ) e liberdade de expressão.

A estas expectativas gestadas pela internet, talvez o pensamento de Bauman possa oferecer alguns insights interessantes, algumas idéias críticas para se pensar essas promessas com radicalidade e, por que não, com uma certa dose de ceticismo. Uma vez que o pensamento de Bauman não aborda diretamente os temas específicos da internet, a aproximação de suas reflexões com as promessas da net irão se realizar aqui de modo ensaístico, como improviso reflexivo.

Um dos pilares da construção da modernidade foi a defesa incondicional a respeito da dignidade humana. Mesmo diante de uma variedade de interpretações acerca do que ela deva significar, em qualquer uma de suas variações é possível encontrar de forma fácil a defesa do valor à vida e o elogio da subjetividade e individualidade de todo e qualquer ser humano. Todos nós, em qualquer parte do mundo somos únicos, originais e especiais, por conta de nossa humanidade.
Isto nos indicava que a subjetividade era o campo privilegiado do desenvolvimento humano, espaço que deveríamos investir todas as nossas energias. Inclui-se nisto, as atividades de refinamento do espírito, a aquisição de cultura, e esclarecimento.

Mas ao que tudo indica, esse projeto foi sendo trincado em suas muitas fissuras, na multiplicação de suas contradições, que por fim levaram ao desmoronamento deste edifício utópico no início da época pós-moderna. O que se revelou como o funcionamento atual é o fato de que algumas vidas (ou modelos de vida), e somente alguns, são investidos e possuem status de “vida digna”. Uma massa incrível de vidas, de culturas, e ordens sociais, históricas e temporais são vistas hoje como velharias históricas que não encontram, nem encontrarão encaixe no mundo contemporâneo. É o caso dos refugiados, novos imigrantes, culturas atrasas, modelos de vida ultrapassados. Referências que se transformam em excentricidades e enlatados humorísticos no youtube?

Existe uma sensação comum na escrita dos blogs, que indica um estado de irrelevância para o que vai escrito em cada post. É como se fosse um sentimento de impotência sobre a capacidade de dizer algo relevante, uma percepção de que qualquer que seja o esforço, os textos não têm poder nenhum, não causam impacto em nada, são, portanto, irrelevantes.

É óbvio que muitos vão argumentar que tal idéia pode ser rebatida pelo poder crescente que a opinião dos consumidores expressas em seus blogs e sites têm influenciado o mercado de tecnologia, a questão da publicidade e das marcas. Mas o problema que faz este exemplo perder sua força é justamente o fato de que ele se situa dentro do próprio modelo de consumo no qual as relações sociais, em seus aspectos mais problemáticos não aparecem. Ou mais especificamente, é muito fácil atribuir um poder maravilhoso de sociabilidade a internet enquanto ela canaliza grandes comunidades em torno de debates que reforçam a produção tecnológica e os padrões de consumo, deixando em silêncio questões políticas e sociais.

Simplificando de forma quase caricatural o pensamento de Bauman, a “culpa” não seria propriamente da internet. A questão é que a internet surge no contexto no qual a política, em seu sentido tradicional, já foi eliminada da esfera pública das sociedades ocidentais. Todo aquele mundo de representações que polarizava esquerda e direita, movimentos sociais, engajamento, conscientização e busca de transformação social foi dissolvido junto com a desintegração dos Estados-nação, com o fim das utopias sociais, a flexibilização das fronteiras e legislações trabalhistas.

A tendência totalitária visa à total aniquilação da esfera privada, do reino da autoconstituição e autodeterminação individuais – em suma, à irreversível dissolução do privado no público. O objetivo não é tanto impedir os indivíduos de pensar – uma vez que isso seria impossível mesmo diante do mais fanático dos padrões – mas tornar o seu pensamento impotente, irrelevante e sem influência para o sucesso e fracasso do poder. No extremo da tendência totalitária, são bloqueados os canais de comunicação entre poder público e o que quer que tenha restado dos indivíduos privados. Não há necessidade de diálogo, uma vez que não há nada a dizer: os súditos nada têm a dizer que possa ser de valor para os interesses do poder e os poderes instituídos não têm mais necessidade de convencer, converter, ou doutrinar os súditos.

Arendt

Minha percepção a partir das considerações de Bauman indica que o grande limitador das iniciativas na internet como canais efetivamente novos nos meios de comunicação tradicionais está justamente nesta promessa não realizada de “novo” Espaço Público Virtual. Neste caso, é importante considerar que antes do advento da internet o Espaço Público e a ação política já se encontravam em crise, fato que dificulta a constituição de atores sociais e de padrões de sociabilidade em sintonia com essas expectativas.

Ao contrário de tomar a ruptura técnica que a web representa, torna-se mais interessante inscrevê-la no próprio processo de continuidade dos novos arranjos de sociabilidade precária nos quais os indivíduos não possuem um preparo para a ação: são livres para falar o que quiserem, mas suas falas se dissolvem facilmente no turbilhão incessante da informação virtual.

O enigma do Espaço Público

    • O surgimento das Comunidades Virtuais

      Na ausência de uma política de sentido tradicional, passam a brotar, quase que naturalmente, formas de associação mais elementares, de acordo com Bauman, formas que reavivam modelos de vida um tanto quanto idealistas, que buscam uma imagem de homem pré-social reintegrado à natureza e associado de modo comunitário em locais onde florescem o acolhimento, a paz e o sentimento de identificação entre todos os membros. São espécies de comunidades baseadas em ideais saudosistas que não possuem chances de se realizar mais em nosso presente. O mais curioso das novas comunidades é o fato de que elas funcionam a partir de uma contradição um tanto quanto curiosa. Bauman aponta que a comunidade recepciona e agrega todos os seu membros e estimula uma situação de “isolamento comunitário” na qual os membros reforçam suas próprias referências, com a falsa sensação de liberdade de escolha da cultura-referência correta, mas que se revela como um modo de controle interpessoal muito efetivo e rígido do controle das consciências.

        • O significado das novas relações on-line.

          Há diversas armadilhas para os corajosos pesquisadores que se lançam a tentar compreender o que acontece em termos sociais (off-line)
          Cooperação virtual: uma nova modalidade de sociabilidade?

          Uma das perguntas interessantes que o pensamento de Bauman pode nos oferecer quando confrontado com as novidades oferecidas pela web é justamente perguntar em que medida a cooperação virtual oferece um padrão realmente transformador de sociabilidade, na medida em que ele seria capaz de operar realizações nas vidas daqueles que foram excluídos dos padrões de consumo e produção atuais.

          Vida Líquida

          Diferentemente da sociedade moderna anterior, que chamo de “modernidade sólida”, que também tratava sempre de desmontar a realidade herdada, a de agora não o faz com uma perspectiva de longa duração, com a intenção de torná-la melhor e novamente sólida. Tudo está agora sendo permanentemente desmontado mas sem perspectiva de alguma permanência. Tudo é temporário. É por isso que sugeri a metáfora da “liquidez” para caracterizar o estado da sociedade moderna: como os líquidos, ela caracteriza-se pela incapacidade de manter a forma. Nossas instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades “auto-evidentes”. Sem dúvida a vida moderna foi desde o início “desenraizadora”, “derretia os sólidos e profanava os sagrados”, como os jovens Marx e Engels notaram. Mas enquanto no passado isso era feito para ser novamente “re-enraizado”, agora todas as coisas — empregos, relacionamentos, know-hows etc. — tendem a permanecer em fluxo, voláteis, desreguladas, flexíveis. A nossa é uma era, portanto, que se caracteriza não tanto por quebrar as rotinas e subverter as tradições, mas por evitar que padrões de conduta se congelem em rotinas e tradições. (Zygmunt Bauman)

          As doçuras e agruras da vida líquida – os novos laços sociais – o amor líquido

          Para compor o quadro de nossa contemporaneidade, Bauman investiga um campo pouco explorado pela sociologia, que é o da afetividade e dos relacionamentos amorosos. Em conformidade com o contexto da vida líquida, na qual ninguém mais pode ser ingênuo a ponto de pensar num único projeto ou modelo de vida completo, no campo afetivo também estamos submetidos a uma incerteza e precariedade constantes. Hoje chega a causar repulsa a idéia de um relacionamento que dure para sempre, mas ao mesmo tempo o que mais se procura e se prioriza nos relacionamentos é a busca por segurança e estabilidade. Bauman pondera que é perfeitamente compreensível que num mundo cada vez mais incerto os indivíduos busquem companheiros fixos e estáveis que possam contribuir com um entendimento e acolhimento, mas ninguém acredita que uma pessoa deva abrir mão de suas perspectivas e planos para viver em função de outra. O que marca hoje as relações amorosas é que os relacionamentos são sentidos e pensados em termos de investimentos e cálculos emotivos-econômicos, nos quais as pessoas esperam investir energias e receber em troca vantagens emocionais, segurança e felicidade. Ao contrário de se estabelecer como uma relação na qual os parceiros reconhecem o valor do relacionamento e a importância das concessões mútuas, temos hoje grande número de situações em que os indivíduos possuem um relacionamento provisório e a atenção voltada para o mercado aberto de futuros parceiros: uma espécie de mercado no qual os parceiros afetivos são descartáveis, vale o que oferecer mais vantagens.

          A sociedade fragmentada que o senhor apresenta em ‘Vidas desperdiçadas’ não estimula a individualização e o sentimento de medo ao estranho que foram apresentados em ‘Amor líquido’?

          Bauman – Claro. Nos comportamos exatamente como o tipo de sociedade apresentada nos ‘reality shows’, como por exemplo, o ‘Big Brother’. A questão da ‘realidade’, como insinuam os programas desse tipo, é que não é preciso fazer algo para ‘merecer’ a exclusão. O que o ‘reality show’ apresenta é o destino e a exclusão é o destino inevitável. A questão não é ‘se’, mas ‘quem’ e ‘quando’. As pessoas não são excluídas porque são más, mas porque outros demonstram ser mais espertos na arte de passar por cima dos outros. Todos são avisados de que não têm capacidade de permanecer porque existe uma cota de exclusão que precisa ser preenchida. É exatamente essa familiaridade que desperta o interesse em massa por esse tipo de programa. Muitos de nós adotamos e tentamos seguir a mensagem contida no lema do programa ‘Survivor’ – ‘não confie em ninguém!’ Um slogan como esse não prediz muito bem o futuro das amizades e parcerias humanas.Este abandono da vida pública e a descrença total no poder de transformação das realidades sociais mais próximas, também gerou o seu tributo contemporâneo. O preço pago é a sensação de sofrer individualmente (julgando-se o único responsável) problemas que tem abrangência e origem coletiva.

          Interessante isso:

          As pessoas não são excluídas porque são más, mas porque outros demonstram ser mais espertos na arte de passar por cima dos outros. Todos são avisados de que não têm capacidade de permanecer porque existe uma cota de exclusão que precisa ser preenchida.

          Divagações em aberto (não me responsabilizo pelas mesmas, estão aqui publicadas como rascunho: se não entender, deixe de lado…):

          Enquanto muitos estão buscando discutir o formato e as possibilidades de definição do novo modelo de publicação que irá resolver a viabilidade econômica dos blogs, com Bauman é possível tomar um posicionamento bastante diferente do convencional neste debate. Não importa tanto discutir o aspecto formal de publicação (se o blog é um diário pessoal, um portal de notícias de tecnologia, se é uma comunidade, etc.) o que figura como questão central é o fato de estarmos diante de um acontecimento cultural absolutamente novo em nossas sociedades: trata-se desta nova condição dos cidadãos, que agora possuem uma quantidade de informações cada vez maior hospedadas no espaço virtual.

          Muito da oposição que se coloca entre os meios tradicionais e os novos atores emergentes oriundos das ferramentas da internet significam menos uma verdadeira contenda mas sim uma nova conjuntura na qual o valor da informação foi modificado e as profissões foram dissolvidas junto com o mundo da modernidade sólida.

          O outro ponto interessante que a análise de Bauman acrescenta na discussão sobre os futuros da internet se direciona ao tema da intensidade dos laços sociais que se estabelecem no hiperespaço. Ao que tudo indica, enquanto alguns pensadores otimistas apostam na força transformadora que os novos relacionamentos virtuais terão sobre as formas tradicionais (off-line) de sociabilidade que constituem a sociedade, em Bauman esses novos contatos virtuais podem ser entendidos muito mais como contatos que se inscrevem neste processo de enfraquecimento dos vínculos sociais.

          Alguns elementos para complementar a visão cética de Bauman.

          Não creio que a visão cética de Bauman redunde num pessimismo. O autor não está realmente preocupado em afirmar que devemos perder as esperanças no ambiente virtual. Ao que parece, a sua preocupação se liga mais ao cuidado de revelar o encaixe da internet, mostrar como ela está inscrita num processo de precarização dos laços de sociabilidade e dissolvimento de formas de agir, de saber e tudo o que isso compreende (conjunto de saberes profissionais, modelos de vida, expectativas de mundo, etc.). Além disto, ele não investiga quais poderiam ser os caminhos para uma internet mais produtiva, mais transformadora, como um exemplo de modificação positiva do mundo.É justamente pensando neste aspecto que creio ser interessante colocar alguns pontos a respeito desta positividade da web, citar alguns pontos nos quais ela poderia evoluir para se tornar menos cética, tal como a diagnosticou Bauman:

          Inteligência Coletiva: novos padrões de colaboração, cooperação. O desafio que estas idéias impõem, sobretudo quando se pensa em sua realização, são a construção de ambientes propícios para a sua manifestação. Para que haja cooperação, é necessário um contexto promissor no qual os agentes se sintam estimulados e recompensados por agirem em parcerias. Uma vez que é possível pensar em contextos viabilizadores de cooperação, não podemos de forma alguma esquecer a necessidade de pensarmos a formação de novos sujeitos preparados para a ação cooperativa. Precisamos descobrir uma forma de criar contextos e sujeitos preparados para a ação conjunta.

          Pensar modos de reapropriação dos instrumentos culturais, econômicos e sociais dos sujeitos contemporâneos.

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          6 Comentários em “Para uma internet sem sonhos nem ilusões: o olhar cético de Zygmunt Bauman – Pack Teórico III”

          1. CARLOS ALBERTO BORGES RIBEIRO Says:

            caro Arruda aí vão mais alguns pensamentos sobre “a nossa técnica”:

            SEGUNDO PIERRE LÉVI, A CULTURA DETERMINA A TÉCNICA E, UMA SOCIEDADE É CONDICIONADA POR SUAS TÉCNICAS, NÃO DETERMINADA.

            Não há uma “causa” identificável para um estado de fato social ou cultural, mas sim um conjunto infinitamente complexo e parcialmente indeterminado de processos em interação que se auto-sustentam ou se inibem. (…) Dizer que uma técnica condiciona significa dizer que abre algumas possibilidades, que algumas opções culturais ou sociais não poderiam ser pensadas a sério sem sua presença. (Pierre Lévy. Cibercultura: 1999, 25)

            Neste ponto, podemos concluir que as técnicas possibilitam certos fatos sociais/culturais e, que as técnicas não são exclusivas de uma cultura. As causas sociais são um conjunto de fatos condicionantes que possibilitam os fatos sociais. Uma técnica, conforme a complexidade cultural ou social, possibilita que o indivíduo a explore conforme as suas possibilidades culturais/conhecimento, ou seja, conforme os seus valores, normas, crenças etc. As técnicas não estão à disposição de todos ao mesmo tempo. Ela não é criada coletivamente. Ela é setorial. É apreendida por indivíduos que, conforme a direção do uso coletivo (como a maioria usa), lhe confere, condiciona certo fato social/cultural – “A cultura da rede ainda não está estabelecida, seus meios técnicos encontram-se na infância, seu crescimento não terminou” (Lévy, 1996: p. 12).

            Poderemos fazer uma analogia das técnicas contidas na internet com o processo de socialização/aquisição de conhecimento (transmissão de idéias, normas, valores, crenças, comportamentos e atitudes dos sistemas sociais humanos) necessários ao desenvolvimento de ações de apropriação de informação e produção de outras, para a produção de interação social nos diversos sistemas contidos na internet (cibersistemas), o ciberespaço().

            O ciberespaço pode ser imaginado como um ambiente de mídia, que é formatado para receber determinados sistemas virtuais, acionadas por software. Sistemas sociais são amplificados enormemente por tais co-sistemas () eletrônicos no ciberespaço (“cibersistemas”). Cada sistema constitui seus próprios elementos (informações, mensagens) como unidades funcionais. A interação entre cibersistemas (chat, salas de bate papo) e sistemas sociais aumenta, assim, o grau de disponibilidade de elementos funcionalizáveis pela possibilidade de viver mundos diferentes a cada instante. (www.facom.ufba.br)
            Lévy cita que por serem muito rápidas, no sentido de contínua mudança/transformação, as técnicas são tidas como uma ameaça, pois neste caso, o “processo de socialização” (na internet) do indivíduo com elas, não se completa ou, se o faz, acontece de forma lenta. “Ela explica parcialmente a sensação de impacto, de exterioridade, de estranheza que nos toma sempre que tentemos apreender o movimento contemporâneo das técnicas” (LÉVY, 1999, p. 27). Um fato social é reconhecido pelo seu poder de coerção externa que exerce ou é suscetível de exercer sobre indivíduos, fato típico da sociedade moderna e seus valores de coerção. A velocidade das alterações técnicas na são identificáveis como ações sociais/relações humanas. Quanto mais rápida a alteração técnica, menos humana ela se torna ou é “tornada”, como se o processo de ação social não fosse completo e aí, achamos algo pernóstico, não nosso, dos outros. Quanto mais pessoas participam do processo de alteração tecnológica, maior se torna a consciência coletiva e mais interativa é ou se torna, a técnica. Neste ponto a técnica na internet passa a ser cultura e, portanto, ação social. Quanto menor a interação dos indivíduos com as técnicas, maior a exclusão, o sentimento de ser uma coisa externa.

            Ao citar que mesmo os mais “ligados” encontram-se, em graus diversos, ultrapassados pela mudança, Lévy nos remete de novo ao problema do conhecimento e produção de realidade dentro da internet, pois o conhecimento sobre as técnicas permite ao indivíduo um maior desenvolvimento de palco e bastidores , onde cabe ao usuário percorrer, penetrar e permanecer na rede, conforme o seu conhecimento.

            Aquilo que identificamos, de forma grosseira, como “novas tecnologias” recobrem na verdade a atividade multiforme de grupos humanos, um devir coletivo complexo que se cristaliza, sobretudo em volta de objetos materiais, de programas de computador e de dispositivos de comunicação. É o processo social em toda a sua opacidade, é a atividade dos outros, que retorna para o indivíduo sob a máscara estrangeira, inumana, da técnica. (Lévy, 1999, p. 28).

            Esta atividade “inumana” que produz um “devir coletivo” é o processo de construção social. A internet não existe por ela mesma, ela existe somente por aquilo que lhe é atribuído pelos indivíduos que a operalizam. O usuário, através da informação, é que lhe dá/atribui existência. Isto é construção social.
            Os diversos campos do conhecimento que reconhecem o conceito de representações sociais(), remetem-se ao conceito durkheimiano de representações coletivas . Podemos fazer aqui, uma analogia deste “devir coletivo” de Pierre Lévy com o conceito durkheimiano de que a consciência coletiva de que está dotada a vida coletiva (integrada por fatos sociais) é, segundo DURKHEIM, constituída por representações coletivas, fenômenos que se distinguem de outros fenômenos da natureza por suas características peculiares. As representações coletivas conservam sempre a marca do substrato social em que nascem, mas têm uma vida independente: reproduzem-se e se misturam, produzindo novas representações sociais cuja causa são outras representações sociais e não a estrutura social. O processo de comunicação na internet nada tem haver como o modo/tecnologia de produção, ele é produção individual. Neste caso, não criamos choque entre o pensar marxista e durkheimiano – como veremos mais à frente com Luhmann, sobre a condição sistêmica e a construção de realidades. Ressaltando, portanto, a sua autonomia relativa, escreve DURKHEIM:

            As representações coletivas traduzem a maneira como o grupo pensa nas suas relações com os objetos que o afetam. Para compreender como a sociedade se representa a si própria e ao mundo que a rodeia, precisamos considerar a natureza da sociedade e não a dos indivíduos. Os símbolos com que ela se pensa mudam de acordo com a sua natureza (…) Se ela aceita ou condena certos modos de conduta, é porque entram em choque ou não com alguns dos seus sentimentos fundamentais, sentimentos estes que pertencem à sua constituição. (DURKHEIM,1973: p.79)


          2. Agradeço muito ao pensador Carlos Alberto a inestimável contribuição neste humilde blog. Cada um dos apontamentos abre grandes discussões importante sobre o nosso “tão insondável presente”. É gratificante ver pessoas interessadas em discutir essas questões. Abraço

          3. Uriel Says:

            Amigo, fico grato por esse texto maravilhoso. Trabalho com internet, leio Bauman e afins, me envolvo com programação e exatas, mas sempre tive paixão por humanas. É gratificante saber que uma agulha no palheiro existe.

            Fico grato pelo texto, muito bom! Além de trabalhar com internet, observo tudo isso com esse olhar “pessimista” que , é claro, canso de ser apedrejado. Deve ser porque tenho que preencher as lacunas dos “excluídos” hahaha;

            Grande abraço, fica meu e-mail aí para que possamos manter contato.

            Uriel.


            • Olá, Uriel, obrigado pelo feedback positivo. Como vc bem apontou, existe um conjunto grande de temas interessantes relacionados com a internet que precisam de uma melhor discussão mais aprofundada. Nesta ocasião deste texto, o máximo que fiz foi levantar algumas questões, mas não fui além disso. Já faz tempo que tenho outras obras do Bauman que tratam diretamente da questão da internet, mas fiquei um pouco afastado por conta de outros compromissos. Preciso voltar o quanto antes a discutir essas temáticas. Sempre que quiser discutir esse assunto, fique a vontade para dar um alo. Abracos

          4. Ivete Says:

            Oláá!!
            Sempre questionei e onde parei talvez consiga escrever. . .
            Uma das mais belas características, senão a conclusão destes questionamentos seria: a diversidade de egos. EUs de ENEs e com apenas um ÚNICO código genético.
            Conseguir perceber estas variáveis você pode: Contrapor-se e se ferir. Unir-se ne então acrescentar. Se ignorar essas diferenças, poderá sim apenas estar sem ser.

            Como seria melhor se uma flor pudesse ser. Apenas pra vir, espalhar beleza, aromas discretos, inspirações para afins e então murchar e voltar ao nada. Uma existência curta como a humana mas tão espontânea, livre, indiferente, repetida como o nosso ciclo sem fim e sem nexo mas muito mais bela !!

          5. Patrícia R. A. Tittoto Says:

            Agradeço o belíssimo ensaio e gostaria de saber as referências trazidas de Bauman, inclusive a da entrevista.
            grata,
            patrícia


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