Cafezinho do Alto, para sempre.

Publicado 15/3/2011 por Rodolfo Arruda
Categorias: Sem categoria

Lembro-me como se fosse ontem, a primeira vez que o Tio Aluízio se arriscou a me dar um conselho:

_ profissionalmente, é muito bom você sair de Cafezinho do Alto, será uma experiência importante para você amadurecer, ainda que….

_ ainda que, o quê?… por que o senhor está se incomodando com isso?

_ ainda que, ehhhh… sabe… ainda que você fique rico fora, realizado profissionalmente, depois irá descobrir que não existe cidade com mais qualidade de vida do que Cafezinho do Alto. Você pode ficar fora até ganhar a sua autonomia financeira, mas depois terá desejo de voltar pra cá.

Do alto dos meus recém completados 18 anos, não tinha maturidade suficiente para entender o que meu tio afirmava. Envolto em muitas descobertas e incertezas, as minhas dúvidas pareciam se resumir em escolher um curso superior e decidir entre algumas jovens garotas com as quais eu mantinha contatos afetivos. Perdia noites de sono tentando levantar o maior número de informações sobre as possibilidades fora da minha cidade natal: as potencialidades das cidades vizinhas, as oportunidades que os outros Estados ofereciam, as chances de emprego na Capital, ou mesmo os editais de cargos públicos espalhados pelo Brasil. Tudo que eu lia ou descobria, apontava para um imenso leque de oportunidades, potenciais inexplorados, chances de realização em locais mais belos e com pessoas mais interessantes. Meus amigos também não falavam de outra coisa: sabe, eu vou para a Guanabara, tenho um primo que deu certo lá; eu vou para Contestado, porque lá as coisas estão começando a se desenvolver; vou mesmo é para os Pampas, porque as mulheres são mais belas e eu quero ter muitos filhos… Cada um tinha um motivo, cada um viajava nas suas justificativas, embebidas em sonhos, dificuldades, realidades distintas e seduções. Na verdade, eu acreditava que estava decidindo algo: a cultura em Cafezinho do Alto de sair da cidade era tão forte que isso fazia parte do processo cultural de se tornar um adolescente naquela cidade interiorana. Era, como posso dizer… inevitável que aquilo acontecesse, como de fato ocorrera com a maioria de nossa geração. Todos arrumaram situações fora de Cafezinho do Alto; seja uma faculdade, um trabalho, um cargo público, um casamento ou coisa do gênero. Era incrível como a maioria conseguia criar ou descobrir oportunidades fora da cidade, além daqueles que iam mais longe ainda, para fora do País, fluentes no inglês ou passeando pelas muralhas do velho continente. Naquele tempo não tínhamos tantos recursos informáticos para compartilharmos essas experiências. Tudo era muito casual, às vezes num metrô ou numa livraria famosa, acontecia de encontrar um cara ou uma garota da cidade, algo que marcava muito, pois a gente sentia uma sensação estranha, de surpresa pelo absurdo da coincidência, você imagina, numa metrópole de 10 milhões de pessoas você encontrar uma pessoa conhecida, da sua terra.

Pedi o segundo expresso pois já estava com essa mania de tomar mais de dois curtos depois do almoço. Em Cafezinho do Alto a coisa que eu menos me preocupava era controlar a quantidade de café que ingeria diariamente. Rubicão sempre se surpreendia com a minha capacidade de beber café de forma compulsiva ao longo do dia, mas se conformava em tecer pequenos comentários irônicos. Com aqueles seu jeito professoral, ele pontuava:

_ é razoável considerar que muitos voltaram, já que foram tantos que tentaram a sorte fora, como a gente estava comentando, mas…. Teleco, como a gente vêm percebendo de um tempo pra cá, todo mundo está voltando pra cá. É estranho, semana vem semana vai, chega uma figura nova, cada um com uma história diferente…

_ pois é Rubicão, é por isso que eu estou te contando a história do meu tio….

_ que seu tio falava que a cidade era muito boa, que não tinha como encontrar um lugar melhor pra viver do que aqui?

_ é isso, mas…. não é porque a cidade é boa, quer dizer, é boa também, mas não justifica….

_ que conversa mais maluca…

_ porra!!!

Eu era um cara linear como o Rubião na primeira vez que vi o Tio Aluízio tecendo aqueles comentários, aparentemente, despretensiosos. Como fui um dos primeiros a retornar para Cafezinho do Alto, essa sensação de estranhamento já tinha ocorrido comigo antes dessa nossa conversa com o Rubicão. Já tinha tentado sair Cafezinho do Alto em outras duas ocasiões, mas sempre um motivo muito sutil acabava por me reconduzir a terrinha natal. Quando jovem o maior medo era de perder a namorada: os adultos me fitavam e inquiriam: você está disposto a perder sua vidinha tranqüila, a segurança familiar a sua namoradinha bonita para tentar a sorte fora? Eu estava certo que não encontraria coisas melhores em outras paragens, mas a cultura local de que os jovens têm que provar que são corajosos e capazes falava mais alto. Nas ocasiões seguintes, tive muito êxito profissional, fiz investimentos fora e juntei capital. Sempre que olhava para as conquistas, sentia um vazio e estranhamento diante das riquezas, pois pareciam que elas não tinham o mesmo efeito de encantamento que deveriam possuir em Cafezinho do Alto. Muitos me perguntavam: o que te prende em Cafezinho do Alto? E eu dizia, hoje nada, já perdi minha namorada, estou desempregado, profissionalmente só tenho chance fora daqui, aqui não posso dar vazão para minhas ambições artísticas e pessoais. Nada me assusta mais do que ficar os próximos anos de minha vida freqüentado os bares de Cafezinho do Alto. No fundo, eu tinha uma convicção de que tudo isso que eu dizia era verdadeiro, mas também não conseguia identificar por que motivos uma insegurança, sei lá, uma incerteza (hesitação) pairava nos cantos deste discurso, que fazia minha cabeça num plano mais imediato da consciência. Já tinha confessado coisas desta monta com o tio Aluízio:

_ tio, o senhor já morou fora da cidade?

_ morei, sim. No meu tempo a gente era mais estimulado a enfrentar o desconhecido do que agora. Seu vô tinha muito daquele lance do pioneiro, se você não é o poderoso do local você tem que desbravar os espaços, as zonas cinzentas, comprar terra, imóveis, emprestar dinheiro pras pessoas da cidade, ter empregados e muitos filhos. Trabalhei com muita madeireira, na época em que a Amazônia era uma terra de oportunidades, mas sabia que isso não seria definitivo. Seu vô tinha me dito algo semelhante, mas eu sem perceber sabia que voltaria pra nossa cidade natal.

_ a cada semana eu reencontro um amigo que voltou, tio. No começo eu achava que era o único saudosista, que preferia deixar um punhado de portas abertas fora da nossa terra, só pra ter aquela sensação de revisitar a cidade, mas depois, com o tempo, via que não importava o destino de quem saia, quer fosse bem sucedido ou fracassado (qualquer que seja o critério que se utilize para avaliar isso) nada disso importava. Era como se fosse…

_ como se fosse uma força da cidade, atraindo seus membros (de pronto redargüiu Aluízio)?

Foi nesse ponto, Rubicão, que eu comecei a desconfiar de Cafezinho do Alto. Sabe, eu sempre tive uma relação simples, afetuosa com a cidade: a cidade é boa, eu gosto daqui, tudo é tranqüilo, não preciso buscar nada fora… Pra que pensar muito sobre o local de onde se vive se ele oferece as coisas básicas para uma boa vida, sem cobrar muito esforço ou sofrimento de você? É como se fosse um pacto, Rubicão: Cafezinho do Alto deixa você viver bem, tranqüilo (essa é a palavra que eles usam quando querem dizer que a cidade tem qualidade de vida – o que seria uma cidade com qualidade de vida???) mas o custo disto é viver numa certa ignorância, não uma ignorância convencional de não conhecer a verdade, mas uma ignorância letárgica, que está relacionada com a sensação do tempo, com uma inconsciência mortal de deixar o tempo passar, de viver em ciclos repetitivos, de se repetir perante os outros, mas sem se revoltar contra isso.

_ você entende isso Rubicão, ignorância letárgica?…

_ que porra é essa… café dá barato agora?!

Eu já estava no terceiro expresso, com o peito acelerado, o que me deixava sem paciência para explicar. Como poderia explicar algo que também levei tempo para compreender. Foi só aos poucos também que Tio Aluízio me explicou, não por conceitos, mas pela experiência, o motivo de tantos retornos, essa força que Cafezinho do Alto tem sobre seus membros.

_ sabe, Teleco, o seu vô sempre falava do início de Cafezinho do Alto, de quanta infelicidade existia quando as primeiras famílias aqui chegaram. É como se fosse algo que estivesse acima, elas não tinham culpa nem podiam controlar isso. Fazia parte do começo, e quaisquer que fossem os elementos e acontecimentos, nesse espaço foi colocado o papo do pionerismo: essa terra é boa, nós somos valorosos, vamos prosperar aqui, custe o que custar…

Quando meu tio falava isso, logo eu me recordava com facilidade. Placas espalhadas na cidade: Cafezinho do Alto, cidade modelo. Escolinha infantil Fulano de Tal: escola modelo. Posto de Saúde da Família: projeto social modelo. Todos na cidade se orgulhavam de instituições tão valorosas e modelares. Sabe o que é isso Rubicão? Anos e anos incutindo, disseminando, pulverizando uma mentalidade de que esse lugar, Cafezinho do Alto, é um lugar especial. Um local ameno, para se levar uma vida boa, amena, um local bom pra envelhecer. Eles, os pioneiros, conseguiram cravar na mentalidade popular de Cafezinho do Alto que aqui é o melhor lugar.

_ eles criaram um mito, Rubicão, um mito de que Cafezinho do Alto é alguma coisa especial, que ninguém encontra em outros lugares, embora você possa encontrar coisas muito boas, não é igual, nada é igual…

Mas o mito é só uma parte da explicação. Rubicão ficou imaginando que essa volta esmagadora dos antigos moradores era apenas uma conseqüência dessa mentalidade popular, dessa representação alegórica da cidade que é reproduzida e compartilhada pelos cidadãos cafezaltivos. Ele certamente não seria imaginativo o suficiente para abarcar algumas evidências que o Tio Aluízio deixou entrever, postulados que deveriam sustentar suas colocações dispersivas e lacônicas.

_ essa força, Teleco, isso não é qualquer coisa não. Até hoje não conheço ninguém que conseguiu escapar dessa cidade, entendeu Teleco, ninguém conseguiu mudar completamente dessa cidade. As motivações são as mais sutis, sedutoras e dissimuladas que você possa imaginar: pode ser o calor dos amigos e familiares, uma paixão intensa da juventude reavivada, um suporte financeiro ou mesmo um canto sossegado para se esconder durante a chuva. Nada disso é real, são variações do poder da cidade. Talvez esse poder tenha surgido a partir daqueles pioneiros, acho que algo muito infeliz ocorreu para que ninguém pudesse sair daqui, para que os filhos de Cafezinho do Alto pudessem se espalhar pelo mundo. Nós estamos presos aqui, entendeu? Nós ficaremos até o fim em Cafezinho do Alto.

One Froggy Evening: featuring Michigan J. Frog

Publicado 17/11/2009 por Rodolfo Arruda
Categorias: 1

Esse desenho de 1955 é simplesmente um primor em termos de animação. A temática do animal que possui dotes mágicos é antiga, mas o tratamento que a narrativa recebe neste episódio é perfeito: são seis minutos, uma história com começo, meio e fim, completamente assimilável e inteligível, cativante e sem nenhuma quebra de ritmo. E, ainda por cima, dispensa o diálogo. No seu lugar, a música é o elemento chave que amarra toda a narrativa: ela pontua o espanto e a admiração, com um ragtime alegre quando descobrimos o protagonista, mantém o ritmo no momento da expectativa da reinauguração do teatro, lamenta ironicamente a reclusão no hospital psiquiátrico e informa (de modo memorável) o tom de maldição e circularidade da narrativa com a música ecoando nas redondezas. É claro que nada teria sentindo sem a figura genial e carismática do nosso querido “frog” que nos conquista logo no primeiro olhar. O nome desse sapinho é Michigan J. Frog. e esse nome foi dado depois que o desenho se popularizou, com base na segunda canção que ele interpreta, no momento em que seu recente dono tenta convencer os dirigentes da Acme de que o sapo é um astro: Michigan Rag.
Esse detalhe (o grande detalhe talvez), mostra (ao que me parece) qual foi a verdadeira concepção original desta animação, reforçando a minha idéia de que a narrativa foi estruturada toda a partir da música. Na verdade, o sapinho não era o foco que os diretores queriam explorar, mas, sobretudo, a proposta consistia em fazer uma paródia musical aos cantores populares (broadway, vaudeville, swing, ragtime) e brincar com os sonhos e desilusões que compõe esse universo. No final, essa pequena-grande história foi muito além disso e acabou nos legando o nosso querido sapinho cantor de jazz e ragtime (sacana, às vezes, eu sei) Michigan J. Frog, que possui uma vocação imensa para ser um grande mascote de qualquer coisa. Essa é a minha aposta; e a de vocês?

ps: agradeço a dica ao Jeff Paiva, que montou um galeria legal no site do Gafanhotos Bar, em São Paulo.

Ênio Leite de Barros: um pintor que merece divulgação.

Publicado 11/11/2009 por Rodolfo Arruda
Categorias: Amigos

Exposição de Trabalhos

Ênio Leite de Barros, nasceu em 20 de outubro de 1949, na cidade de Novo Horizonte, interior de São Paulo. Em 1968 se mudou pra São Paulo, capital. Se formou em arquitetura na FAU/USP, mas exerceu pouco a profissão. Na maior parte do tempo, foi bancário do Banco do Brasil, durante 18 anos. Pinta quadros desde os 17 anos, quando pegou gosto pelas artes-plásticas; de lá prá cá, nunca mais parou de pintar. Durante os anos de BB, fez boas exposições de seu trabalho e foi agraciado com alguns prêmios, todos no âmbito artístico do banco. Suas tentativas de divulgar o seu trabalho no meio comercial das artes-plásticas não foram bem sucedidas. Seu forte nunca foi a divulgação de seu trabalho, de alguma forma ele possui uma visão desencantada do mercado das artes-plásticas. Essa dificuldade diante do mercado, limitou, e muito, a divulgação do trabalho de Ênio. Por questões pessoais, tive acesso ao seu trabalho. E a experiência me diz, e isso não me sai da cabeça, de que ele atingiu a maturidade artística, algo que foi cultivado por mais de 40 anos e que ele nunca se preocupou muito em divulgar ou teorizar em cima de sua obra. Diante de seus trabalhos, notamos uma riqueza de conteúdo e um profundo conhecimento de artes-plásticas, mas pessoalmente, quando conversamos com ele, essa parte crítica e teórica das pinturas é o que menos se ouve. A sua criação, diz ele, “sai com o pé-nas-costas, às vezes pego um retrato ou anúncio de jornal que me sugere um tema, e pinto antes de preparar o jantar”. Creio que o seu trabalho merece uma divulgação. São mais de 180 quadros neste link: http://picasaweb.google.com/enio.l.barros (mas já adianto que ele possui um número imenso de pinturas). Quem gostar de seu trabalho, aproveite para ajudar a divulgá-lo. Fica a dica. Abraços

O Jazz e a fidelidade

Publicado 30/10/2009 por Rodolfo Arruda
Categorias: Filosofia Barata, Jazz, Pensamentos esparsos

É um pensamento idiota, reconheço. Não tem nada a ver associar música com relacionamentos afetivos, mas vejam se a ideia não tem lá alguma coerência.

Nos relacionamentos afetivos, a fidelidade é considerada um elemento vital para a sobrevivência do casal, talvez a parte mais nobre e importante do casal.  Mas, ao lado disso, também é  algo difícil de manter, um peso que muitos tem dificuldade de levar a cabo.  Há quem defenda que a fidelidade é uma grande responsabilidade, com seus bônus e ônus.  Enfim, é uma responsabilidade que às vezes pode ser tornar um peso, dependendo da situação do sujeito.

No Jazz, pelo menos num primeiro momento, fidelidade é algo absolutamente descontextualizado: pra que ser fiel a um gênero se você pode ouvir tudo de todos, fixar-se apenas a “boa música”, ter o ouvido aberto (sem preconceitos) para todos os gêneros?

Não sei. Tem horas que Jazz parece uma namorada. Você precisar ser fiel a ele para que ele, o Jazz, possa te abrir aquele cantinho de acolhimento, aquela experiência única de se sentir contemplado no mundo quando alguém te entende. Só essa fidelidade permite o surgimento daquele momento sublime que não é uma reles e simples alegria qualquer, mas é o resultado de muito tempo, de muito comprometimento e dedicação àquele relacionamento e retidão àqueles princípios e concepções musicais. Ouvir jazz, ouvir jazz, de manhã, antes de dormir, na hora do almoço… Não é apenas um cara se exaltando de forma ingênua, exteriorizando o gosto pessoal perante os outros, sem respeitar as regras simples de boa conduta.

 

O exagero não é gratuito, ele faz parte do lance da fidelidade. A questão é que a fidelidade, como disse acima, é o elemento chave para que as coisas aconteçam; é como nos relacionamentos, você não vai descobrir alguns sentimentos se você não se lançar de cabeça naquele mundo, no tempo, na longa e distendida dimensão do tempo, evoluindo aos poucos, para chegar até àquele ápice. Jaaazzzzzzzzzz….

 

 

Faz tempo que me entreguei a você, minha namorada, a ti sou fiel. A ti entrego tudo; sei que no fundo, estou dominado. Mas é por uma boa causa. Você não vai me decepcionar, não é mesmo?

Gargalhada Metafísica

Publicado 7/4/2009 por Rodolfo Arruda
Categorias: Filosofia Barata, precário

Por – Srta Maria

O mundo já está tão saturado que já não se contam mais histórias. Não temos mais histórias com moral da história no final, ou coisa que o valha. A única coisa que fazemos é explorar a linguagem, experimentar a linguagem. –  Lamartine

 

Legal, gostei da sua história! Pelo que eu entendi, é uma história que acontece num bar,  todo mundo bebe, ri, enche a cara, se ferra, mas no fundo continua quase tudo a mesma porcaria…

É quase isso, mas não tem final feliz, entendeu? Do jeito que você fala, parece que tem um consolo no final, e não tem.

Sim, tem coisas legais. O sarcasmo, o formato de teoria, sem final feliz ou moral da história, é a sua cara.

Então, não sei se você entendeu, mas esta história é uma alegoria?

Claro, por mais que a gente se mexa, a vida continua a mesma tranqueira, as pessoas piram na noite, todo mundo tenta se passar por outro, sempre tem alguém pra fazer uma besteira, mas no fim a gente acaba voltando no dia seguinte.

Certo, mas o que eu pensei da minha própria história é que não precisa ter esse desfecho circular que você está imaginando. É como se a gente fizesse tudo isso, mas com uma filosofia niilista, sem precisar ter nenhum sentido para garantir a gente no final.

Filosofia niilista???

É como se fosse um contínuo. Não tem a hora da descontração e depois a da frustração da realidade. É tudo junto. O personagem está no Bar, mas é como se não estivesse, entendeu? A realidade é uma só.

Sim, acho que entendi. Mas esse “contínuo”… não deixa de ser uma comédia (a tragédia essência da comédia)

Não tem ruptura…

Eh…

A gente sempre vai no Bar porque está esperando que as coisas mudem, sempre queremos descobrir algo novo, achamos que algo vai mudar. Eu falo que não vai mudar.

Por isso que eu disse: já que a vida é ridícula, todo mundo pira e no dia seguinte a gente continua.

Não é isso. Se vamos ao bar e nos realizamos ou não, não importa. Tudo continua rídico como a vida cotidiana. A ruptura da festa que o bar anuncia nunca se realiza porque continuamos sempre sendo a mesma pessoa… O ridículo é acreditarmos na ruptura. O resto é o amargo da sobrevivência, que se consola com pequenos instantes de gozos efêmeros.

Gozos efêmeros, que palavra besta. Parece redundância.

É idiota mesmo. Se os gozos durassem…

Puxa, essa conversa até me deixou esvaziada. Acho que vou dormir.

Antes de você ir, posso te contar uma última história?

Sim, mas é algo estranho?

Não, é meio idiota. Essa coisa de gozo efêmero eu posso dizer que descobri empiricamente.

Como assim?

Vou contar, mas você vai estranhar. Uma vez eu tive uma transa com uma garota que nunca imaginei que fosse dar certo…

Lá vem…

Aí quando chegou a hora dos finalmente… sabe… nossa… foi uma sensação tão fudida (maravilhosa) que eu pensei que ia ter um negócio…

Puxa… e depois…

Sabe, na hora do gozo…

Sim…

Eu caí de lado e pensei…

Fala…

“O mundo parou, eu posso morrer agora.”

Uau! Que garota, heim!

Aí eu pensei… caramba, a gente vive por causa desta merda… por mais que eu fosse o cara mais perfeito do mundo… isto que eu estou sentindo agora iria acabar do mesmo jeito daqui a dois ou três minutos, no máximo… será que é só prá isso que a gente vive?

Hum, e daí?

Aí, é que no final da história me deu um ataque de riso.

Como assim, na hora?

Isso, na hora mesmo. Ao mesmo tempo da sensação.

Nossa!

Te juro por deus… eu comecei a rir sem entender o que estava acontecendo comigo.

Caramba, e a pessoa, não estranhou?

Não, acho que não. Mas te juro, foi espontânea, sem forçar nem nada…foi uma gargalhada completa, de ouvir do outro lado… veio de dentro…sem eu imaginar… não sei explicar…

Estranho mesmo… o que será que você achou graça naquele momento?

Sei lá… não era alegria também… parece que naquele momento eu realmente sabia o que era ser um mortal.

Que coisa mais ridícula, meu deus… que gargalhada mais doida.

Não sei, talvez tenha sido uma gargalhada metafísica. 

A vendedora de celular

Publicado 26/7/2008 por Rodolfo Arruda
Categorias: Filosofia Barata, precário

Eu e meu amigo Corrêa estávamos discutindo um assunto interessante e absolutamente inútil esses dias.

A coisa partia de uma impressão que, curiosamente, foi sentida de forma espontânea e individual por cada um de nós.

Falavamos de celulares, de como o povo anda consumindo em massa esse produto, quando o assunto logo descambou para as vendedoras de celular.

Vocês já notaram o quanto de garota bonita vende o aparelho? De fato, esta observação é bastante corriqueira e já não surpreende ninguém.

Mas a conversa ficou interessante na medida em que a gente discutiu como a estratégia apelativa das lojas realmente funciona.

Chegamos à conclusão de que quanto mais bonita for a vendedora, mais os homens se sentem pressionados para comprar os aparelhos top de linha.

A coisa não passa de uma psicologia comportamental bem chinfrim, mas funciona que é uma beleza. Quer um exemplo, um cara classe média, durante um passeio, passa numa loja só pra se distrair vendo o colorido da variedade dos modelos. Se aparece uma vendedora e passa a atendê-lo, uma pressão básica para que o sujeito leve alguma coisa já começa a rolar.

Mais a frente, com a pressão inicial estabelecida, ou seja, o cara sente a obrigação de comprar algo para não ficar chato, aí a discussão toda vai ser em torno de saber qual aparelho vai ser adquirido.

É aí que entra a vendedora de celular na história. Quando o sujeito já tomou a picada do consumo, o perigo é ela (a picada) ser significativamente agravada, caso – adivinhem – a vendedora de celular seja bonita. E vejam, grande parte delas são, feliz ou infelizmente – dependendo da sua perspectiva, estética, financeira ou afetiva.

Segundo nossa incipiente teoria, os homens, de forma involuntária e imperceptível, vão associar o ato da compra do aparelho a uma exibição de poder e distinção perante a vendedora de celular, ou seja, quanto mais bonita for a nobre vendedora, o ato de exibição deverá ser maior.

Já imaginou, encosta uma mulheraça linda na sua frente, especialmente para te atender, e você vai levar aquele modelo econômico, o “mais feinho de todos“, que não tem porra nenhuma de função? Afinal, que merda de homem é você? Isso sem contar que nunca uma mulher tão maravilhosa deu tanta atenção pra você – não é mesmo ?- ainda que fosse numa circunstância onde os objetivos são estritamente econômicos.

Seguindo nessa linha, lembrei-me de um colega que se apaixonou por uma bela e legítima vendedora e agora, coitado, troca o celular de três em três meses. (é claro que ele freqüenta a loja com muito mais freqüência, mas sua técnica, justificou ele, é ficar sempre se demonstrando interessado nas especificações técnicas dos aparelhos e envolvendo as vendedoras nos debates sobre a influência dos celulares caros na maior produtividade do mundo contemporâneo).

É por isso que hoje eu tenho uma teoria: as vendedoras são ótimas sim, mas se for tentar algo, faça sempre fora da loja. Entenderam, fora da loja. Já no caso de necessidade real de comprar um aparelho, sigam a dica do Corrêa – “é duro admitir, mas é melhor escolher as vendedoras fisicamente menos privilegiadas; você vai comprar o seu aparelho básico sem se sentir um pobre coitado”.

Blogagem coletiva: é um caso para se pensar…

Publicado 29/5/2008 por Rodolfo Arruda
Categorias: Devaneios Informáticos, Filosofia Barata, Pensamentos esparsos, Rabugices

A princípio, parece que ninguém duvida de que blogar em conjunto é bem melhor do que blogar sozinho. Tudo converge para uma resposta fácil, que afirma que “blogue” é diálogo, interação, troca rápida de informações, parcerias, etc. Tudo bem, isso é verdadeiro: é uma faceta possível, talvez uma das principais facetas, mas não a única, diga-se de passagem.

Depois de um tempinho considerável nessa “blogosfera de meu deus” (ow palavrinha safada essa, “blogosfera”), para dizer a verdade, acho que a blogagem coletiva (em muitos casos, não digo que todos, entendam) virou algo meio estranho; algo que perdeu o seu sentido primordial.

Partindo para uma livre interpretação, acredito que alguma explicação deve residir na necessidade imperiosa do ser humano de se sentir integrado, reconhecido, seu instinto de evitar a solidão, o medo de ficar sozinho.

Por conta disto, há uma tendência muito forte em nós de buscar um coletivo, de se inserir, se integrar o mais rápido possível, de obter feedbacks em maior quantidade. Isso é uma coisa boa, sem dúvida, e fundamental para nos sentirmos vivos. Não há o que questionar.

Essas observações, por sua vez, transpostas ao universo dos blogs, geram efeitos no mínimo curiosos. Acho que o efeito principal é o fato de que as pessoas abrem mão de forma muito fácil de suas individualidades e se deixam influenciar pelas pautas e pelos assuntos de maior destaque em troca de um reconhecimento mais fácil.

Isso é bom, claro. Mas vejam, quando todos aderem a essa tendência, o que acontece? Ocorre que você passa a ter uma espécie de pauta única (puxada por alguns alguns meios de comunicação hegemônicos) e consequentemente passa a ter menos diversidade, menos debate, menos originalidade.

Tem também a questão que o coletivo passa a influenciar as individualidades, passa muitas vezes a padronizar comportamentos e estilos e, desta maneira, a assimilar as individualidades.

Para o indivíduo, é uma situação difícil de ser percebida. Em regra a sensação é a de acolhimento, de participação e de integração, o que o faz se sentir aliviado e seguro de suas referências, reconhecido em sua posição.

Há momentos que a internet parece com isso: um imenso espaço de ilhas auto-referenciadas. Em alguma medida elas se influenciam e se contaminam reciprocamente, mas não propriamente por formas de diálogos.

Finalizando, na blogagem coletiva você irá se sentir integrado, vai ter mais feedbacks e mais rápidos. Vai encontrar pessoas que irão entender a sua língua, que discutirão as suas idéias, entenderão as suas questões e ansiedades.

Porém, acolhido no grupo, dificilmente você terá uma visão de fora, exterior, um estranhamento. Uma visão de dúvida e desencaixe, de desconfiança sobre tudo o que está acontecendo. Você terá menos “riscos” de ter um pensamento excêntrico. Você terá (infelizmente, creio que sim) menos chances de criar um caminho só seu, um estilo especialmente seu, um trabalho dignamente ancorado na sua trajetória, num caminho que você criou (na sua loucura, sim) mas absolutamente seu. Na comunidade você estará “protegido” contra o mundo exterior e todos os perigos e medos que ele envolve. Por mais que você acredite em sua originalidade, você estará sempre mais suscetível à influência do grupo, pois a sua identidade foi criada em conjunto e por isso, depende do conjunto.

Os coletivos tecno-informáticos irão crescer, disso não há dúvidas. Mas quando tudo estiver organizado em muitas tribos, de infinitos matizes, talvez aqueles pontos isolados passem a ter um brilho diferente. Talvez passem a ter outro valor e outra interpretação diante dos coletivos que se proliferam.


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