O Jazz e a fidelidade

Posted 30/10/2009 by Rodolfo Arruda
Categories: Filosofia Barata, Jazz, Pensamentos esparsos

É um pensamento idiota, reconheço. Não tem nada a ver associar música com relacionamentos afetivos, mas vejam se a ideia não tem lá alguma coerência.

Nos relacionamentos afetivos, a fidelidade é considerada um elemento vital para a sobrevivência do casal, talvez a parte mais nobre e importante do casal.  Mas, ao lado disso, também é  algo difícil de manter, um peso que muitos tem dificuldade de levar a cabo.  Há quem defenda que a fidelidade é uma grande responsabilidade, com seus bônus e ônus.  Enfim, é uma responsabilidade que às vezes pode ser tornar um peso, dependendo da situação do sujeito.

No Jazz, pelo menos num primeiro momento, fidelidade é algo absolutamente descontextualizado: pra que ser fiel a um gênero se você pode ouvir tudo de todos, fixar-se apenas a “boa música”, ter o ouvido aberto (sem preconceitos) para todos os gêneros?

Não sei. Tem horas que Jazz parece uma namorada. Você precisar ser fiel a ele para que ele, o Jazz, possa te abrir aquele cantinho de acolhimento, aquela experiência única de se sentir contemplado no mundo quando alguém te entende. Só essa fidelidade permite o surgimento daquele momento sublime que não é uma reles e simples alegria qualquer, mas é o resultado de muito tempo, de muito comprometimento e dedicação àquele relacionamento e retidão àqueles princípios e concepções musicais. Ouvir jazz, ouvir jazz, de manhã, antes de dormir, na hora do almoço… Não é apenas um cara se exaltando de forma ingênua, exteriorizando o gosto pessoal perante os outros, sem respeitar as regras simples de boa conduta.

 

O exagero não é gratuito, ele faz parte do lance da fidelidade. A questão é que a fidelidade, como disse acima, é o elemento chave para que as coisas aconteçam; é como nos relacionamentos, você não vai descobrir alguns sentimentos se você não se lançar de cabeça naquele mundo, no tempo, na longa e distendida dimensão do tempo, evoluindo aos poucos, para chegar até àquele ápice. Jaaazzzzzzzzzz….

 

 

Faz tempo que me entreguei a você, minha namorada, a ti sou fiel. A ti entrego tudo; sei que no fundo, estou dominado. Mas é por uma boa causa. Você não vai me decepcionar, não é mesmo?

Gargalhada Metafísica

Posted 7/4/2009 by Rodolfo Arruda
Categories: Filosofia Barata, precário

Por – Srta Maria

O mundo já está tão saturado que já não se contam mais histórias. Não temos mais histórias com moral da história no final, ou coisa que o valha. A única coisa que fazemos é explorar a linguagem, experimentar a linguagem. –  Lamartine

 

Legal, gostei da sua história! Pelo que eu entendi, é uma história que acontece num bar,  todo mundo bebe, ri, enche a cara, se ferra, mas no fundo continua quase tudo a mesma porcaria…

É quase isso, mas não tem final feliz, entendeu? Do jeito que você fala, parece que tem um consolo no final, e não tem.

Sim, tem coisas legais. O sarcasmo, o formato de teoria, sem final feliz ou moral da história, é a sua cara.

Então, não sei se você entendeu, mas esta história é uma alegoria?

Claro, por mais que a gente se mexa, a vida continua a mesma tranqueira, as pessoas piram na noite, todo mundo tenta se passar por outro, sempre tem alguém pra fazer uma besteira, mas no fim a gente acaba voltando no dia seguinte.

Certo, mas o que eu pensei da minha própria história é que não precisa ter esse desfecho circular que você está imaginando. É como se a gente fizesse tudo isso, mas com uma filosofia niilista, sem precisar ter nenhum sentido para garantir a gente no final.

Filosofia niilista???

É como se fosse um contínuo. Não tem a hora da descontração e depois a da frustração da realidade. É tudo junto. O personagem está no Bar, mas é como se não estivesse, entendeu? A realidade é uma só.

Sim, acho que entendi. Mas esse “contínuo”… não deixa de ser uma comédia (a tragédia essência da comédia)

Não tem ruptura…

Eh…

A gente sempre vai no Bar porque está esperando que as coisas mudem, sempre queremos descobrir algo novo, achamos que algo vai mudar. Eu falo que não vai mudar.

Por isso que eu disse: já que a vida é ridícula, todo mundo pira e no dia seguinte a gente continua.

Não é isso. Se vamos ao bar e nos realizamos ou não, não importa. Tudo continua rídico como a vida cotidiana. A ruptura da festa que o bar anuncia nunca se realiza porque continuamos sempre sendo a mesma pessoa… O ridículo é acreditarmos na ruptura. O resto é o amargo da sobrevivência, que se consola com pequenos instantes de gozos efêmeros.

Gozos efêmeros, que palavra besta. Parece redundância.

É idiota mesmo. Se os gozos durassem…

Puxa, essa conversa até me deixou esvaziada. Acho que vou dormir.

Antes de você ir, posso te contar uma última história?

Sim, mas é algo estranho?

Não, é meio idiota. Essa coisa de gozo efêmero eu posso dizer que descobri empiricamente.

Como assim?

Vou contar, mas você vai estranhar. Uma vez eu tive uma transa com uma garota que nunca imaginei que fosse dar certo…

Lá vem…

Aí quando chegou a hora dos finalmente… sabe… nossa… foi uma sensação tão fudida (maravilhosa) que eu pensei que ia ter um negócio…

Puxa… e depois…

Sabe, na hora do gozo…

Sim…

Eu caí de lado e pensei…

Fala…

“O mundo parou, eu posso morrer agora.”

Uau! Que garota, heim!

Aí eu pensei… caramba, a gente vive por causa desta merda… por mais que eu fosse o cara mais perfeito do mundo… isto que eu estou sentindo agora iria acabar do mesmo jeito daqui a dois ou três minutos, no máximo… será que é só prá isso que a gente vive?

Hum, e daí?

Aí, é que no final da história me deu um ataque de riso.

Como assim, na hora?

Isso, na hora mesmo. Ao mesmo tempo da sensação.

Nossa!

Te juro por deus… eu comecei a rir sem entender o que estava acontecendo comigo.

Caramba, e a pessoa, não estranhou?

Não, acho que não. Mas te juro, foi espontânea, sem forçar nem nada…foi uma gargalhada completa, de ouvir do outro lado… veio de dentro…sem eu imaginar… não sei explicar…

Estranho mesmo… o que será que você achou graça naquele momento?

Sei lá… não era alegria também… parece que naquele momento eu realmente sabia o que era ser um mortal.

Que coisa mais ridícula, meu deus… que gargalhada mais doida.

Não sei, talvez tenha sido uma gargalhada metafísica. 

A vendedora de celular

Posted 26/7/2008 by Rodolfo Arruda
Categories: Filosofia Barata, precário

Eu e meu amigo Corrêa estávamos discutindo um assunto interessante e absolutamente inútil esses dias.

A coisa partia de uma impressão que, curiosamente, foi sentida de forma espontânea e individual por cada um de nós.

Falavamos de celulares, de como o povo anda consumindo em massa esse produto, quando o assunto logo descambou para as vendedoras de celular.

Vocês já notaram o quanto de garota bonita vende o aparelho? De fato, esta observação é bastante corriqueira e já não surpreende ninguém.

Mas a conversa ficou interessante na medida em que a gente discutiu como a estratégia apelativa das lojas realmente funciona.

Chegamos à conclusão de que quanto mais bonita for a vendedora, mais os homens se sentem pressionados para comprar os aparelhos top de linha.

A coisa não passa de uma psicologia comportamental bem chinfrim, mas funciona que é uma beleza. Quer um exemplo, um cara classe média, durante um passeio, passa numa loja só pra se distrair vendo o colorido da variedade dos modelos. Se aparece uma vendedora e passa a atendê-lo, uma pressão básica para que o sujeito leve alguma coisa já começa a rolar.

Mais a frente, com a pressão inicial estabelecida, ou seja, o cara sente a obrigação de comprar algo para não ficar chato, aí a discussão toda vai ser em torno de saber qual aparelho vai ser adquirido.

É aí que entra a vendedora de celular na história. Quando o sujeito já tomou a picada do consumo, o perigo é ela (a picada) ser significativamente agravada, caso – adivinhem – a vendedora de celular seja bonita. E vejam, grande parte delas são, feliz ou infelizmente – dependendo da sua perspectiva, estética, financeira ou afetiva.

Segundo nossa incipiente teoria, os homens, de forma involuntária e imperceptível, vão associar o ato da compra do aparelho a uma exibição de poder e distinção perante a vendedora de celular, ou seja, quanto mais bonita for a nobre vendedora, o ato de exibição deverá ser maior.

Já imaginou, encosta uma mulheraça linda na sua frente, especialmente para te atender, e você vai levar aquele modelo econômico, o “mais feinho de todos“, que não tem porra nenhuma de função? Afinal, que merda de homem é você? Isso sem contar que nunca uma mulher tão maravilhosa deu tanta atenção pra você – não é mesmo ?- ainda que fosse numa circunstância onde os objetivos são estritamente econômicos.

Seguindo nessa linha, lembrei-me de um colega que se apaixonou por uma bela e legítima vendedora e agora, coitado, troca o celular de três em três meses. (é claro que ele freqüenta a loja com muito mais freqüência, mas sua técnica, justificou ele, é ficar sempre se demonstrando interessado nas especificações técnicas dos aparelhos e envolvendo as vendedoras nos debates sobre a influência dos celulares caros na maior produtividade do mundo contemporâneo).

É por isso que hoje eu tenho uma teoria: as vendedoras são ótimas sim, mas se for tentar algo, faça sempre fora da loja. Entenderam, fora da loja. Já no caso de necessidade real de comprar um aparelho, sigam a dica do Corrêa – “é duro admitir, mas é melhor escolher as vendedoras fisicamente menos privilegiadas; você vai comprar o seu aparelho básico sem se sentir um pobre coitado”.

Blogagem coletiva: é um caso para se pensar…

Posted 29/5/2008 by Rodolfo Arruda
Categories: Devaneios Informáticos, Filosofia Barata, Pensamentos esparsos, Rabugices

A princípio, parece que ninguém duvida de que blogar em conjunto é bem melhor do que blogar sozinho. Tudo converge para uma resposta fácil, que afirma que “blogue” é diálogo, interação, troca rápida de informações, parcerias, etc. Tudo bem, isso é verdadeiro: é uma faceta possível, talvez uma das principais facetas, mas não a única, diga-se de passagem.

Depois de um tempinho considerável nessa “blogosfera de meu deus” (ow palavrinha safada essa, “blogosfera”), para dizer a verdade, acho que a blogagem coletiva (em muitos casos, não digo que todos, entendam) virou algo meio estranho; algo que perdeu o seu sentido primordial.

Partindo para uma livre interpretação, acredito que alguma explicação deve residir na necessidade imperiosa do ser humano de se sentir integrado, reconhecido, seu instinto de evitar a solidão, o medo de ficar sozinho.

Por conta disto, há uma tendência muito forte em nós de buscar um coletivo, de se inserir, se integrar o mais rápido possível, de obter feedbacks em maior quantidade. Isso é uma coisa boa, sem dúvida, e fundamental para nos sentirmos vivos. Não há o que questionar.

Essas observações, por sua vez, transpostas ao universo dos blogs, geram efeitos no mínimo curiosos. Acho que o efeito principal é o fato de que as pessoas abrem mão de forma muito fácil de suas individualidades e se deixam influenciar pelas pautas e pelos assuntos de maior destaque em troca de um reconhecimento mais fácil.

Isso é bom, claro. Mas vejam, quando todos aderem a essa tendência, o que acontece? Ocorre que você passa a ter uma espécie de pauta única (puxada por alguns alguns meios de comunicação hegemônicos) e consequentemente passa a ter menos diversidade, menos debate, menos originalidade.

Tem também a questão que o coletivo passa a influenciar as individualidades, passa muitas vezes a padronizar comportamentos e estilos e, desta maneira, a assimilar as individualidades.

Para o indivíduo, é uma situação difícil de ser percebida. Em regra a sensação é a de acolhimento, de participação e de integração, o que o faz se sentir aliviado e seguro de suas referências, reconhecido em sua posição.

Há momentos que a internet parece com isso: um imenso espaço de ilhas auto-referenciadas. Em alguma medida elas se influenciam e se contaminam reciprocamente, mas não propriamente por formas de diálogos.

Finalizando, na blogagem coletiva você irá se sentir integrado, vai ter mais feedbacks e mais rápidos. Vai encontrar pessoas que irão entender a sua língua, que discutirão as suas idéias, entenderão as suas questões e ansiedades.

Porém, acolhido no grupo, dificilmente você terá uma visão de fora, exterior, um estranhamento. Uma visão de dúvida e desencaixe, de desconfiança sobre tudo o que está acontecendo. Você terá menos “riscos” de ter um pensamento excêntrico. Você terá (infelizmente, creio que sim) menos chances de criar um caminho só seu, um estilo especialmente seu, um trabalho dignamente ancorado na sua trajetória, num caminho que você criou (na sua loucura, sim) mas absolutamente seu. Na comunidade você estará “protegido” contra o mundo exterior e todos os perigos e medos que ele envolve. Por mais que você acredite em sua originalidade, você estará sempre mais suscetível à influência do grupo, pois a sua identidade foi criada em conjunto e por isso, depende do conjunto.

Os coletivos tecno-informáticos irão crescer, disso não há dúvidas. Mas quando tudo estiver organizado em muitas tribos, de infinitos matizes, talvez aqueles pontos isolados passem a ter um brilho diferente. Talvez passem a ter outro valor e outra interpretação diante dos coletivos que se proliferam.

Homem Pássaro

Posted 7/4/2008 by Rodolfo Arruda
Categories: precário

Mais uma figura ressuscitada pelo Youtube.

Ps: sabem o que mais chama a atenção neste super-herói? Não conheço muito, mas me parece que a ausência de um vilão coerente é algo que mata na raiz o sucesso de qualquer personagem lançado ao cargo de super-herói. Se não houver uma tensão muito bem construída entre herói e o vilão, ao que faça o espectator se identificar com as duas (repito!) as duas personagens, não há super-poderes que segure a onda. Talvez seja essa a impressão: o personagem é um amontoado de super-poderes que se sucedem, um tanto quanto sem sentido.

O Jazz se vinga do Rock

Posted 1/4/2008 by Rodolfo Arruda
Categories: Jazz

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Há uma tendência hoje de muitos jazzístas reinterpretarem hits (o que no jazz chamaríamos de standards) do Rock. É uma situação muito legal, porque a música verdadeira não conhece gênero nem fronteiras e rótulos.

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Brad Mehldau, por exemplo, vem tocando rock direto, Beatles, Radiohead, Oasis, Nick Drake, Paul Simon e sei lá mais o quê. E o pior, cada vez melhor! Eu acho que o que ela anda fazendo é dissolvendo o rock, mostrando como o jazz ainda tem muito o que ensinar ao estilo dito rebelde. Sei que é uma bobagem colocar as coisas em termos de embates de gênero, mas ele anda detonando o rock. Para muitos isso pode representar uma traição do gênero, quando se abandona as referências em busca de um repertório mais pop-rock, e aí teríamos a mesma situação tradicional, onde o jazz continua prostrado e submisso.

Parece um dilema, não?

Será que estamos mesmo diante de uma vingança do Jazz?

ps: agora acabo de confirmar. Até Black Hole Sun do SoundGarden (quem não se lembra dessa!). Acho que é vingança mesmo.

Nick Drake – Five Leaves Left

Posted 4/3/2008 by Rodolfo Arruda
Categories: Jazz

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Não conhecia nada de Nick Drake até escutar muitas vezes Day is Done de Brad Mehldau. Por influência de Mehldau, descobri esse álbum muito interessante, Five Leaves Left (para muitos, um clássico).

Five Leaves Left

Páreo duro:

Day is Done

A princípio, o ponto de contato entre esses dois músicos pode ser visto nestas duas faixas (regravadas por Brad):

River Man: http://youtube.com/watch?v=eEAsZa4Qz2Y (Drake)

http://youtube.com/watch?v=gkfq9GQ4n8I (Mehldau)

Day is Done: http://youtube.com/watch?v=Y2jxjv0HkwM (Drake)

Fica registrada a dica.

ps: River Man não integra Day is Done – é possível encontrar essa faixa em alguns discos de Mehldau, como o Live in Tokyo.

O suicídio do Dr. Gori

Posted 28/1/2008 by Rodolfo Arruda
Categories: Filosofia Barata

Trecho antológico do spectreman. Pura filosofia.

Você é um grande cientista. Há muitos desafios aqui a conquistar. A poluição, a deterioração, os males que afligem a humanidade. Se pudesse convencê-lo de que a paz é a
maior das conquistas.

Tarde demais para isso. Não se ensinam coisas novas a um macaco velho.

O mal é sempre lembrado. O bem é tão difícil de ser reconhecido.

A morte é a única…. buuummm

Ficará pra sempre em nossa lembrança.

ps: comentário nota 10 – sem ironia

dericofre

Dr. Gori foi um gênio incompreendido, pois achava a Terra fantástica demais para ser habitada por seres tão mesquinhos, poluidores e destruidores como os humanos. E nem mesmo os argumentos de Spectreman conseguiram persuadi-lo a mudar de convicção, preferindo a morte. O “macaco” cientista ali era um ente sem esperança. E a esperança era o fator motivador de Spectreman, já que defendia os humanos, os verdadeiros vilões da história.

Meu post de carnaval

Posted 27/1/2008 by Rodolfo Arruda
Categories: Rabugices, precário

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Carnaval = pessoas felizes

Carnaval = pessoas pulando

Carnaval = pessoas felizes pulando

Carnaval = pessoas copulando

Carnaval = pessoas felizes co-pulando

Pessoas felizes co-pulando = pessoas eufóricas pulando juntas – nada mais…


…he he he. esse rascunho foi escrito no carnaval do ano passado, não tive coragem de publicar… mas a coisa já anda esculhambada mesmo por aqui, então voilá…

Para uma internet sem sonhos nem ilusões: o olhar cético de Zygmunt Bauman – Pack Teórico III

Posted 23/1/2008 by Rodolfo Arruda
Categories: Devaneios Informáticos, Filosofia Barata

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A internet é um espaço que tem canalizado muitas expectativas e gestado muitos sonhos. Em geral, os usuários do ciberespaço estão ávidos e encantados pela possibilidade de que a nova rede mundial de pessoas, informações e conhecimento, possibilite a construção de novos espaços de sociabilidade, de trabalho, de participação, de reconhecimento e inclusão social-cultural. Aparte o sonho e a potencialidade em aberto que a tecnologia e o devir histórico nos permitem, se tomarmos as interpretações e os diagnósticos de um dos maiores sociólogos contemporâneos, Zygmunt Bauman, o balanço de suas análises nos indicam um olhar cético perante a internet.Trabalhar na rede, conhecer pessoas, estabelecer relacionamentos virtuais, produzir, consumir produtos e informações em proporções nunca imaginadas. Quem aqui nunca se encantou e viveu o sonho, ainda que por curtas divagações, oferecido pela internet? Mais importante ainda, quais seriam os elementos que poderiam nos sinalizar se estamos mesmo diante de uma transformação positiva de nossos contextos, numa escala mundial, ou, ao contrário, tudo não passa de um mito contemporâneo, um mero golpe de vista histórico-ideológico? Ao que parece, poucos se arriscam neste terreno movediço.

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*nota importante: este texto é o esboço do artigo do Pack Teórico III. Muitas idéias precisam de maior desenvolvimento, mas como ando sem tempo para isso, disponibilizo na rede o texto com todas as suas dificuldades contando mesmo até com a participação e dicas dos eventuais leitores e críticos. Os outro Packs (I e II) podem ser lidos no NossaVia:

Como Bauman não aborda diretamente a internet como um problema em suas obras, o objetivo deste post é justamente ensaiar quais seriam as possíveis aplicações de seus conceitos no âmbito da internet e qual seria a sua posição perante este debate do futuro da rede.

Introdução – o autor e seus temas

Zygmunt Bauman, sociólogo polonês de origem judaica que nasceu em 1925. Foi professor de filosofia e sociologia na universidade de Varsóvia e atualmente leciona sociologia numa universidade inglesa, em Leeds. Como muitos pensadores do leste europeu, foi um estudioso do pensamento marxista e participou do partido comunista polonês. Porém, já no ano de 1968, por conta de uma perseguição anti-semita do governo comunista na Polônia, após passar por algumas cidades, Bauman se muda para a Inglaterra, país no qual se torna professor e reconhecido intelectual. Depois de seu início de carreira como pensador de inspiração marxista, Bauman passa a se destacar como um pensador rico em insights sobre as contradições da sociedade contemporânea, sobretudo a respeito das questões postuladas pelo debate da pós-modernidade.

Como já fora apontado no início deste texto, Bauman não é um autor que aborda especificamente questões da internet. Seu pensamento se ocupa de articular questões que envolvem os problemas sociais que estão tomando corpo no mundo contemporâneo. Boa parte de seu diálogo se dá com os sociólogos britânicos da Teoria Social (Social Theory – Anthony Giddens, Ulrich Beck, Richard Sennett, entre outros) e envolvem debates sobre como esse nosso mundo contemporâneo, por sua complexidade, estaria exigindo novas categorias de pensamento, sobretudo, novos constructos teóricos para além daqueles que o pensamento sociológico clássico nos legou. Para se ter uma idéia do que isso significa, podemos pensar, apenas para dar uma noção do que seria essa busca de novas categorias, em exemplos como:

É possível utilizar conceitos como classe social, modos de produção, capitalismo, Estado-nação, sociedade, anomia, cultura, identidade, etc. para pensarmos os problemas atuais?

Ao que tudo indica, a complexidade e a velocidade na qual as coisas acontecem em nosso presente faz com que tudo seja construído e destruído com uma rapidez nunca imaginada. Modelos de vida, valores morais, saberes, carros, equipamentos eletrônicos, comportamentos, programas de televisão, tendências culturais, tudo é produzido e descartado numa velocidade incrível. Inclusive teorias e modos de compreensão do mundo: estes parecem não dar conta de explicar muita coisa sobre nossos problemas concretos, nem oferecer nada além do que meras narrativas saudosistas a respeito de mundo que gostaríamos de ter. Não acreditamos mais que um sistema de pensamento possa oferecer alguma resposta, solução ou alternativa aos problemas que vivenciamos cotidianamente: não temos mais ideologias nem utopias, somos “realistas” e nos chocamos cada vez menos diante das mazelas humanas e dos idealismos que pregam as suas transformações. O resultado é uma espécie de “conformismo pseudo-realista” na qual a única alternativa é uma salvação individual, uma questão de desafio pessoal na qual o indivíduo se vê como o único responsável pelo seu sucesso profissional-financeiro, em que pese as condicionantes histórico-sociais.

Uma das teses de maior importância para a trajetória de seu pensamento foi apresentada em um de seus maiores livros, Modernidade e Holocausto. Nele se encontra uma interpretação que inverte o modelo convencional no qual as sociedades ocidentais, sobretudo, aquelas culturamente influenciadas pelos países aliados, de que o Holocausto foi um momento de irracionalidade e barbárie do mundo europeu.

Bauman irá defender uma tese contundente de que não se tratou de um acidente histórico, ou de um caso específico de crueldade na história. O Holocausto deve ser inscrito no processo que caracterizou toda a modernidade, toda a cultura dos países ocidentais, ele foi um acontecimento inscrito na lógica da modernidade, uma espécie de culminância exacerbada do projeto civilizatório, como uma contradição latente.

Questões que podem amarrar Bauman a internet

Que tipo de contribuição poderíamos extrair do pensamento de Bauman para as questões que a internet nos tem colocado?

Iniciemos a reflexão por alguns pontos oferecidos pela internet, ou mais especificamente, pelos propagadores e otimistas da rede.
A rede como um espaço novo de sociabilidade – democratização da informação – expansão dos canais de conhecimento – integração de culturas e manifestações artísticas – surgimento de novos produtores de informação ( pessoas comuns ) e liberdade de expressão.

A estas expectativas gestadas pela internet, talvez o pensamento de Bauman possa oferecer alguns insights interessantes, algumas idéias críticas para se pensar essas promessas com radicalidade e, por que não, com uma certa dose de ceticismo. Uma vez que o pensamento de Bauman não aborda diretamente os temas específicos da internet, a aproximação de suas reflexões com as promessas da net irão se realizar aqui de modo ensaístico, como improviso reflexivo.

Um dos pilares da construção da modernidade foi a defesa incondicional a respeito da dignidade humana. Mesmo diante de uma variedade de interpretações acerca do que ela deva significar, em qualquer uma de suas variações é possível encontrar de forma fácil a defesa do valor à vida e o elogio da subjetividade e individualidade de todo e qualquer ser humano. Todos nós, em qualquer parte do mundo somos únicos, originais e especiais, por conta de nossa humanidade.
Isto nos indicava que a subjetividade era o campo privilegiado do desenvolvimento humano, espaço que deveríamos investir todas as nossas energias. Inclui-se nisto, as atividades de refinamento do espírito, a aquisição de cultura, e esclarecimento.

Mas ao que tudo indica, esse projeto foi sendo trincado em suas muitas fissuras, na multiplicação de suas contradições, que por fim levaram ao desmoronamento deste edifício utópico no início da época pós-moderna. O que se revelou como o funcionamento atual é o fato de que algumas vidas (ou modelos de vida), e somente alguns, são investidos e possuem status de “vida digna”. Uma massa incrível de vidas, de culturas, e ordens sociais, históricas e temporais são vistas hoje como velharias históricas que não encontram, nem encontrarão encaixe no mundo contemporâneo. É o caso dos refugiados, novos imigrantes, culturas atrasas, modelos de vida ultrapassados. Referências que se transformam em excentricidades e enlatados humorísticos no youtube?

Existe uma sensação comum na escrita dos blogs, que indica um estado de irrelevância para o que vai escrito em cada post. É como se fosse um sentimento de impotência sobre a capacidade de dizer algo relevante, uma percepção de que qualquer que seja o esforço, os textos não têm poder nenhum, não causam impacto em nada, são, portanto, irrelevantes.

É óbvio que muitos vão argumentar que tal idéia pode ser rebatida pelo poder crescente que a opinião dos consumidores expressas em seus blogs e sites têm influenciado o mercado de tecnologia, a questão da publicidade e das marcas. Mas o problema que faz este exemplo perder sua força é justamente o fato de que ele se situa dentro do próprio modelo de consumo no qual as relações sociais, em seus aspectos mais problemáticos não aparecem. Ou mais especificamente, é muito fácil atribuir um poder maravilhoso de sociabilidade a internet enquanto ela canaliza grandes comunidades em torno de debates que reforçam a produção tecnológica e os padrões de consumo, deixando em silêncio questões políticas e sociais.

Simplificando de forma quase caricatural o pensamento de Bauman, a “culpa” não seria propriamente da internet. A questão é que a internet surge no contexto no qual a política, em seu sentido tradicional, já foi eliminada da esfera pública das sociedades ocidentais. Todo aquele mundo de representações que polarizava esquerda e direita, movimentos sociais, engajamento, conscientização e busca de transformação social foi dissolvido junto com a desintegração dos Estados-nação, com o fim das utopias sociais, a flexibilização das fronteiras e legislações trabalhistas.

A tendência totalitária visa à total aniquilação da esfera privada, do reino da autoconstituição e autodeterminação individuais – em suma, à irreversível dissolução do privado no público. O objetivo não é tanto impedir os indivíduos de pensar – uma vez que isso seria impossível mesmo diante do mais fanático dos padrões – mas tornar o seu pensamento impotente, irrelevante e sem influência para o sucesso e fracasso do poder. No extremo da tendência totalitária, são bloqueados os canais de comunicação entre poder público e o que quer que tenha restado dos indivíduos privados. Não há necessidade de diálogo, uma vez que não há nada a dizer: os súditos nada têm a dizer que possa ser de valor para os interesses do poder e os poderes instituídos não têm mais necessidade de convencer, converter, ou doutrinar os súditos.

Arendt

Minha percepção a partir das considerações de Bauman indica que o grande limitador das iniciativas na internet como canais efetivamente novos nos meios de comunicação tradicionais está justamente nesta promessa não realizada de “novo” Espaço Público Virtual. Neste caso, é importante considerar que antes do advento da internet o Espaço Público e a ação política já se encontravam em crise, fato que dificulta a constituição de atores sociais e de padrões de sociabilidade em sintonia com essas expectativas.

Ao contrário de tomar a ruptura técnica que a web representa, torna-se mais interessante inscrevê-la no próprio processo de continuidade dos novos arranjos de sociabilidade precária nos quais os indivíduos não possuem um preparo para a ação: são livres para falar o que quiserem, mas suas falas se dissolvem facilmente no turbilhão incessante da informação virtual.

O enigma do Espaço Público

    • O surgimento das Comunidades Virtuais

      Na ausência de uma política de sentido tradicional, passam a brotar, quase que naturalmente, formas de associação mais elementares, de acordo com Bauman, formas que reavivam modelos de vida um tanto quanto idealistas, que buscam uma imagem de homem pré-social reintegrado à natureza e associado de modo comunitário em locais onde florescem o acolhimento, a paz e o sentimento de identificação entre todos os membros. São espécies de comunidades baseadas em ideais saudosistas que não possuem chances de se realizar mais em nosso presente. O mais curioso das novas comunidades é o fato de que elas funcionam a partir de uma contradição um tanto quanto curiosa. Bauman aponta que a comunidade recepciona e agrega todos os seu membros e estimula uma situação de “isolamento comunitário” na qual os membros reforçam suas próprias referências, com a falsa sensação de liberdade de escolha da cultura-referência correta, mas que se revela como um modo de controle interpessoal muito efetivo e rígido do controle das consciências.

        • O significado das novas relações on-line.

          Há diversas armadilhas para os corajosos pesquisadores que se lançam a tentar compreender o que acontece em termos sociais (off-line)
          Cooperação virtual: uma nova modalidade de sociabilidade?

          Uma das perguntas interessantes que o pensamento de Bauman pode nos oferecer quando confrontado com as novidades oferecidas pela web é justamente perguntar em que medida a cooperação virtual oferece um padrão realmente transformador de sociabilidade, na medida em que ele seria capaz de operar realizações nas vidas daqueles que foram excluídos dos padrões de consumo e produção atuais.

          Vida Líquida

          Diferentemente da sociedade moderna anterior, que chamo de “modernidade sólida”, que também tratava sempre de desmontar a realidade herdada, a de agora não o faz com uma perspectiva de longa duração, com a intenção de torná-la melhor e novamente sólida. Tudo está agora sendo permanentemente desmontado mas sem perspectiva de alguma permanência. Tudo é temporário. É por isso que sugeri a metáfora da “liquidez” para caracterizar o estado da sociedade moderna: como os líquidos, ela caracteriza-se pela incapacidade de manter a forma. Nossas instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades “auto-evidentes”. Sem dúvida a vida moderna foi desde o início “desenraizadora”, “derretia os sólidos e profanava os sagrados”, como os jovens Marx e Engels notaram. Mas enquanto no passado isso era feito para ser novamente “re-enraizado”, agora todas as coisas — empregos, relacionamentos, know-hows etc. — tendem a permanecer em fluxo, voláteis, desreguladas, flexíveis. A nossa é uma era, portanto, que se caracteriza não tanto por quebrar as rotinas e subverter as tradições, mas por evitar que padrões de conduta se congelem em rotinas e tradições. (Zygmunt Bauman)

          As doçuras e agruras da vida líquida – os novos laços sociais – o amor líquido

          Para compor o quadro de nossa contemporaneidade, Bauman investiga um campo pouco explorado pela sociologia, que é o da afetividade e dos relacionamentos amorosos. Em conformidade com o contexto da vida líquida, na qual ninguém mais pode ser ingênuo a ponto de pensar num único projeto ou modelo de vida completo, no campo afetivo também estamos submetidos a uma incerteza e precariedade constantes. Hoje chega a causar repulsa a idéia de um relacionamento que dure para sempre, mas ao mesmo tempo o que mais se procura e se prioriza nos relacionamentos é a busca por segurança e estabilidade. Bauman pondera que é perfeitamente compreensível que num mundo cada vez mais incerto os indivíduos busquem companheiros fixos e estáveis que possam contribuir com um entendimento e acolhimento, mas ninguém acredita que uma pessoa deva abrir mão de suas perspectivas e planos para viver em função de outra. O que marca hoje as relações amorosas é que os relacionamentos são sentidos e pensados em termos de investimentos e cálculos emotivos-econômicos, nos quais as pessoas esperam investir energias e receber em troca vantagens emocionais, segurança e felicidade. Ao contrário de se estabelecer como uma relação na qual os parceiros reconhecem o valor do relacionamento e a importância das concessões mútuas, temos hoje grande número de situações em que os indivíduos possuem um relacionamento provisório e a atenção voltada para o mercado aberto de futuros parceiros: uma espécie de mercado no qual os parceiros afetivos são descartáveis, vale o que oferecer mais vantagens.

          A sociedade fragmentada que o senhor apresenta em ‘Vidas desperdiçadas’ não estimula a individualização e o sentimento de medo ao estranho que foram apresentados em ‘Amor líquido’?

          Bauman – Claro. Nos comportamos exatamente como o tipo de sociedade apresentada nos ‘reality shows’, como por exemplo, o ‘Big Brother’. A questão da ‘realidade’, como insinuam os programas desse tipo, é que não é preciso fazer algo para ‘merecer’ a exclusão. O que o ‘reality show’ apresenta é o destino e a exclusão é o destino inevitável. A questão não é ’se’, mas ‘quem’ e ‘quando’. As pessoas não são excluídas porque são más, mas porque outros demonstram ser mais espertos na arte de passar por cima dos outros. Todos são avisados de que não têm capacidade de permanecer porque existe uma cota de exclusão que precisa ser preenchida. É exatamente essa familiaridade que desperta o interesse em massa por esse tipo de programa. Muitos de nós adotamos e tentamos seguir a mensagem contida no lema do programa ‘Survivor’ – ‘não confie em ninguém!’ Um slogan como esse não prediz muito bem o futuro das amizades e parcerias humanas.Este abandono da vida pública e a descrença total no poder de transformação das realidades sociais mais próximas, também gerou o seu tributo contemporâneo. O preço pago é a sensação de sofrer individualmente (julgando-se o único responsável) problemas que tem abrangência e origem coletiva.

          Interessante isso:

          As pessoas não são excluídas porque são más, mas porque outros demonstram ser mais espertos na arte de passar por cima dos outros. Todos são avisados de que não têm capacidade de permanecer porque existe uma cota de exclusão que precisa ser preenchida.

          Divagações em aberto (não me responsabilizo pelas mesmas, estão aqui publicadas como rascunho: se não entender, deixe de lado…):

          Enquanto muitos estão buscando discutir o formato e as possibilidades de definição do novo modelo de publicação que irá resolver a viabilidade econômica dos blogs, com Bauman é possível tomar um posicionamento bastante diferente do convencional neste debate. Não importa tanto discutir o aspecto formal de publicação (se o blog é um diário pessoal, um portal de notícias de tecnologia, se é uma comunidade, etc.) o que figura como questão central é o fato de estarmos diante de um acontecimento cultural absolutamente novo em nossas sociedades: trata-se desta nova condição dos cidadãos, que agora possuem uma quantidade de informações cada vez maior hospedadas no espaço virtual.

          Muito da oposição que se coloca entre os meios tradicionais e os novos atores emergentes oriundos das ferramentas da internet significam menos uma verdadeira contenda mas sim uma nova conjuntura na qual o valor da informação foi modificado e as profissões foram dissolvidas junto com o mundo da modernidade sólida.

          O outro ponto interessante que a análise de Bauman acrescenta na discussão sobre os futuros da internet se direciona ao tema da intensidade dos laços sociais que se estabelecem no hiperespaço. Ao que tudo indica, enquanto alguns pensadores otimistas apostam na força transformadora que os novos relacionamentos virtuais terão sobre as formas tradicionais (off-line) de sociabilidade que constituem a sociedade, em Bauman esses novos contatos virtuais podem ser entendidos muito mais como contatos que se inscrevem neste processo de enfraquecimento dos vínculos sociais.

          Alguns elementos para complementar a visão cética de Bauman.

          Não creio que a visão cética de Bauman redunde num pessimismo. O autor não está realmente preocupado em afirmar que devemos perder as esperanças no ambiente virtual. Ao que parece, a sua preocupação se liga mais ao cuidado de revelar o encaixe da internet, mostrar como ela está inscrita num processo de precarização dos laços de sociabilidade e dissolvimento de formas de agir, de saber e tudo o que isso compreende (conjunto de saberes profissionais, modelos de vida, expectativas de mundo, etc.). Além disto, ele não investiga quais poderiam ser os caminhos para uma internet mais produtiva, mais transformadora, como um exemplo de modificação positiva do mundo.É justamente pensando neste aspecto que creio ser interessante colocar alguns pontos a respeito desta positividade da web, citar alguns pontos nos quais ela poderia evoluir para se tornar menos cética, tal como a diagnosticou Bauman:

          Inteligência Coletiva: novos padrões de colaboração, cooperação. O desafio que estas idéias impõem, sobretudo quando se pensa em sua realização, são a construção de ambientes propícios para a sua manifestação. Para que haja cooperação, é necessário um contexto promissor no qual os agentes se sintam estimulados e recompensados por agirem em parcerias. Uma vez que é possível pensar em contextos viabilizadores de cooperação, não podemos de forma alguma esquecer a necessidade de pensarmos a formação de novos sujeitos preparados para a ação cooperativa. Precisamos descobrir uma forma de criar contextos e sujeitos preparados para a ação conjunta.

          Pensar modos de reapropriação dos instrumentos culturais, econômicos e sociais dos sujeitos contemporâneos.