Lembro-me como se fosse ontem, a primeira vez que o Tio Aluízio se arriscou a me dar um conselho:
_ profissionalmente, é muito bom você sair de Cafezinho do Alto, será uma experiência importante para você amadurecer, ainda que….
_ ainda que, o quê?… por que o senhor está se incomodando com isso?
_ ainda que, ehhhh… sabe… ainda que você fique rico fora, realizado profissionalmente, depois irá descobrir que não existe cidade com mais qualidade de vida do que Cafezinho do Alto. Você pode ficar fora até ganhar a sua autonomia financeira, mas depois terá desejo de voltar pra cá.
Do alto dos meus recém completados 18 anos, não tinha maturidade suficiente para entender o que meu tio afirmava. Envolto em muitas descobertas e incertezas, as minhas dúvidas pareciam se resumir em escolher um curso superior e decidir entre algumas jovens garotas com as quais eu mantinha contatos afetivos. Perdia noites de sono tentando levantar o maior número de informações sobre as possibilidades fora da minha cidade natal: as potencialidades das cidades vizinhas, as oportunidades que os outros Estados ofereciam, as chances de emprego na Capital, ou mesmo os editais de cargos públicos espalhados pelo Brasil. Tudo que eu lia ou descobria, apontava para um imenso leque de oportunidades, potenciais inexplorados, chances de realização em locais mais belos e com pessoas mais interessantes. Meus amigos também não falavam de outra coisa: sabe, eu vou para a Guanabara, tenho um primo que deu certo lá; eu vou para Contestado, porque lá as coisas estão começando a se desenvolver; vou mesmo é para os Pampas, porque as mulheres são mais belas e eu quero ter muitos filhos… Cada um tinha um motivo, cada um viajava nas suas justificativas, embebidas em sonhos, dificuldades, realidades distintas e seduções. Na verdade, eu acreditava que estava decidindo algo: a cultura em Cafezinho do Alto de sair da cidade era tão forte que isso fazia parte do processo cultural de se tornar um adolescente naquela cidade interiorana. Era, como posso dizer… inevitável que aquilo acontecesse, como de fato ocorrera com a maioria de nossa geração. Todos arrumaram situações fora de Cafezinho do Alto; seja uma faculdade, um trabalho, um cargo público, um casamento ou coisa do gênero. Era incrível como a maioria conseguia criar ou descobrir oportunidades fora da cidade, além daqueles que iam mais longe ainda, para fora do País, fluentes no inglês ou passeando pelas muralhas do velho continente. Naquele tempo não tínhamos tantos recursos informáticos para compartilharmos essas experiências. Tudo era muito casual, às vezes num metrô ou numa livraria famosa, acontecia de encontrar um cara ou uma garota da cidade, algo que marcava muito, pois a gente sentia uma sensação estranha, de surpresa pelo absurdo da coincidência, você imagina, numa metrópole de 10 milhões de pessoas você encontrar uma pessoa conhecida, da sua terra.
Pedi o segundo expresso pois já estava com essa mania de tomar mais de dois curtos depois do almoço. Em Cafezinho do Alto a coisa que eu menos me preocupava era controlar a quantidade de café que ingeria diariamente. Rubicão sempre se surpreendia com a minha capacidade de beber café de forma compulsiva ao longo do dia, mas se conformava em tecer pequenos comentários irônicos. Com aqueles seu jeito professoral, ele pontuava:
_ é razoável considerar que muitos voltaram, já que foram tantos que tentaram a sorte fora, como a gente estava comentando, mas…. Teleco, como a gente vêm percebendo de um tempo pra cá, todo mundo está voltando pra cá. É estranho, semana vem semana vai, chega uma figura nova, cada um com uma história diferente…
_ pois é Rubicão, é por isso que eu estou te contando a história do meu tio….
_ que seu tio falava que a cidade era muito boa, que não tinha como encontrar um lugar melhor pra viver do que aqui?
_ é isso, mas…. não é porque a cidade é boa, quer dizer, é boa também, mas não justifica….
_ que conversa mais maluca…
_ porra!!!
Eu era um cara linear como o Rubião na primeira vez que vi o Tio Aluízio tecendo aqueles comentários, aparentemente, despretensiosos. Como fui um dos primeiros a retornar para Cafezinho do Alto, essa sensação de estranhamento já tinha ocorrido comigo antes dessa nossa conversa com o Rubicão. Já tinha tentado sair Cafezinho do Alto em outras duas ocasiões, mas sempre um motivo muito sutil acabava por me reconduzir a terrinha natal. Quando jovem o maior medo era de perder a namorada: os adultos me fitavam e inquiriam: você está disposto a perder sua vidinha tranqüila, a segurança familiar a sua namoradinha bonita para tentar a sorte fora? Eu estava certo que não encontraria coisas melhores em outras paragens, mas a cultura local de que os jovens têm que provar que são corajosos e capazes falava mais alto. Nas ocasiões seguintes, tive muito êxito profissional, fiz investimentos fora e juntei capital. Sempre que olhava para as conquistas, sentia um vazio e estranhamento diante das riquezas, pois pareciam que elas não tinham o mesmo efeito de encantamento que deveriam possuir em Cafezinho do Alto. Muitos me perguntavam: o que te prende em Cafezinho do Alto? E eu dizia, hoje nada, já perdi minha namorada, estou desempregado, profissionalmente só tenho chance fora daqui, aqui não posso dar vazão para minhas ambições artísticas e pessoais. Nada me assusta mais do que ficar os próximos anos de minha vida freqüentado os bares de Cafezinho do Alto. No fundo, eu tinha uma convicção de que tudo isso que eu dizia era verdadeiro, mas também não conseguia identificar por que motivos uma insegurança, sei lá, uma incerteza (hesitação) pairava nos cantos deste discurso, que fazia minha cabeça num plano mais imediato da consciência. Já tinha confessado coisas desta monta com o tio Aluízio:
_ tio, o senhor já morou fora da cidade?
_ morei, sim. No meu tempo a gente era mais estimulado a enfrentar o desconhecido do que agora. Seu vô tinha muito daquele lance do pioneiro, se você não é o poderoso do local você tem que desbravar os espaços, as zonas cinzentas, comprar terra, imóveis, emprestar dinheiro pras pessoas da cidade, ter empregados e muitos filhos. Trabalhei com muita madeireira, na época em que a Amazônia era uma terra de oportunidades, mas sabia que isso não seria definitivo. Seu vô tinha me dito algo semelhante, mas eu sem perceber sabia que voltaria pra nossa cidade natal.
_ a cada semana eu reencontro um amigo que voltou, tio. No começo eu achava que era o único saudosista, que preferia deixar um punhado de portas abertas fora da nossa terra, só pra ter aquela sensação de revisitar a cidade, mas depois, com o tempo, via que não importava o destino de quem saia, quer fosse bem sucedido ou fracassado (qualquer que seja o critério que se utilize para avaliar isso) nada disso importava. Era como se fosse…
_ como se fosse uma força da cidade, atraindo seus membros (de pronto redargüiu Aluízio)?
Foi nesse ponto, Rubicão, que eu comecei a desconfiar de Cafezinho do Alto. Sabe, eu sempre tive uma relação simples, afetuosa com a cidade: a cidade é boa, eu gosto daqui, tudo é tranqüilo, não preciso buscar nada fora… Pra que pensar muito sobre o local de onde se vive se ele oferece as coisas básicas para uma boa vida, sem cobrar muito esforço ou sofrimento de você? É como se fosse um pacto, Rubicão: Cafezinho do Alto deixa você viver bem, tranqüilo (essa é a palavra que eles usam quando querem dizer que a cidade tem qualidade de vida – o que seria uma cidade com qualidade de vida???) mas o custo disto é viver numa certa ignorância, não uma ignorância convencional de não conhecer a verdade, mas uma ignorância letárgica, que está relacionada com a sensação do tempo, com uma inconsciência mortal de deixar o tempo passar, de viver em ciclos repetitivos, de se repetir perante os outros, mas sem se revoltar contra isso.
_ você entende isso Rubicão, ignorância letárgica?…
_ que porra é essa… café dá barato agora?!
Eu já estava no terceiro expresso, com o peito acelerado, o que me deixava sem paciência para explicar. Como poderia explicar algo que também levei tempo para compreender. Foi só aos poucos também que Tio Aluízio me explicou, não por conceitos, mas pela experiência, o motivo de tantos retornos, essa força que Cafezinho do Alto tem sobre seus membros.
_ sabe, Teleco, o seu vô sempre falava do início de Cafezinho do Alto, de quanta infelicidade existia quando as primeiras famílias aqui chegaram. É como se fosse algo que estivesse acima, elas não tinham culpa nem podiam controlar isso. Fazia parte do começo, e quaisquer que fossem os elementos e acontecimentos, nesse espaço foi colocado o papo do pionerismo: essa terra é boa, nós somos valorosos, vamos prosperar aqui, custe o que custar…
Quando meu tio falava isso, logo eu me recordava com facilidade. Placas espalhadas na cidade: Cafezinho do Alto, cidade modelo. Escolinha infantil Fulano de Tal: escola modelo. Posto de Saúde da Família: projeto social modelo. Todos na cidade se orgulhavam de instituições tão valorosas e modelares. Sabe o que é isso Rubicão? Anos e anos incutindo, disseminando, pulverizando uma mentalidade de que esse lugar, Cafezinho do Alto, é um lugar especial. Um local ameno, para se levar uma vida boa, amena, um local bom pra envelhecer. Eles, os pioneiros, conseguiram cravar na mentalidade popular de Cafezinho do Alto que aqui é o melhor lugar.
_ eles criaram um mito, Rubicão, um mito de que Cafezinho do Alto é alguma coisa especial, que ninguém encontra em outros lugares, embora você possa encontrar coisas muito boas, não é igual, nada é igual…
Mas o mito é só uma parte da explicação. Rubicão ficou imaginando que essa volta esmagadora dos antigos moradores era apenas uma conseqüência dessa mentalidade popular, dessa representação alegórica da cidade que é reproduzida e compartilhada pelos cidadãos cafezaltivos. Ele certamente não seria imaginativo o suficiente para abarcar algumas evidências que o Tio Aluízio deixou entrever, postulados que deveriam sustentar suas colocações dispersivas e lacônicas.
_ essa força, Teleco, isso não é qualquer coisa não. Até hoje não conheço ninguém que conseguiu escapar dessa cidade, entendeu Teleco, ninguém conseguiu mudar completamente dessa cidade. As motivações são as mais sutis, sedutoras e dissimuladas que você possa imaginar: pode ser o calor dos amigos e familiares, uma paixão intensa da juventude reavivada, um suporte financeiro ou mesmo um canto sossegado para se esconder durante a chuva. Nada disso é real, são variações do poder da cidade. Talvez esse poder tenha surgido a partir daqueles pioneiros, acho que algo muito infeliz ocorreu para que ninguém pudesse sair daqui, para que os filhos de Cafezinho do Alto pudessem se espalhar pelo mundo. Nós estamos presos aqui, entendeu? Nós ficaremos até o fim em Cafezinho do Alto.








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